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A diversão do demônio

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Em uma história de ficção cientifica fantasiosa no Brasil, um casal é escolhido por um demônio, que incorpóreo, atua por meio das sutilezas da mente para atormentar o casal, que já é atormentado pelo seus próprios problemas. O demônio é Faisan, que é um lorde da perversão, e procura por rotinas para se divertir com a destruição a partir das sugestões e condicionamentos. Aline e João são um casal chato, eles são casados a 20 anos, não tem mais rotina sexual, não tem filhos e sente que estão se afastando em um rotina vazia. Faizan resolve escolher nosso casal para correr e bagunçar a vida.

Chapter 1: A Voz Que Não Era Dela

O calor era um animal vivo dentro do quarto. A noite estava parada, sem uma brisa sequer para mover as cortinas de linho. Aline acordou sufocada, o pescoço grudado no travesseiro de penas. Ao lado, João dormia de costas, um monte de lençol solto e roncos suaves. Ela sentiu o suor escorrer entre os seios, um fio preguiçoso descendo pelo vale da barriga até desaparecer na cintura do short de algodão.

A insônia era um líquido quente nos seus ouvidos. E com ela, veio aquele desejo insistente, um formigamento baixo e familiar que não pedia permissão. Olhou para João, imóvel. A rua vazia lá fora não fazia um som. A casa estava sepultada no silêncio.

Ela fechou os olhos, deixou a mão deslizar por baixo do elástico do short. A pele estava quente, úmida. O toque foi cuidadoso no começo, apenas a pressão das pontas dos dedos sobre o pubis, através do tecido fino da calcinha. Ela prendeu a respiração, escutando. Nada. Só a respiração regular de João.

Aline se permitiu afundar. A imagem que veio à mente foi desconexa: o braço do entregador de móveis na semana passada, musculoso e bronzeado, veinhas saltadas enquanto empurrava o sofá novo. Não era sobre ele, era sobre a força, a sugestão de suor e esforço. Seus dedos encontraram o nedo úmido do algodão, pressionaram. Um suspiro escapou, abafado no travesseiro. Ela se moveu com uma cadência mínima, só os quadris levantando um milímetro do colchão, o suficiente para que a fricção gerasse um calor interno, crescente. A mão livre afundou no próprio seio, apertou a carne com uma necessidade quase cruel. Era rápido, era sujo, era só dela. Os músculos da barriga tensionaram, as pernas esticaram, os dedos no clitóris pressionaram com uma urgência repentina. O orgasmo veio como uma onda de choque abafada, um tremor surdo que a fez arquear as costas em silêncio, a boca aberta num gemido mudo. Ela ficou paralisada assim por alguns segundos, o corpo ainda pulsando, antes de desabar, exausta e cheia de vergonha.

O despertador tocou às seis e meia. João acordou primeiro, esfregou o rosto com as mãos ásperas. O sol já fingia clarear a janela. Ele virou-se e viu Aline, de lado, a curva do quadril delineada sob o lençol. Uma ponta de desejo, maçante e matinal, moveu-se nele. Estendeu a mão, pousou-a na cintura dela. A pele estava quente através do tecido. Ele deslizou a mão para baixo, sobre a nádega redonda, um aperto possessivo.

Foi então que sentiu. A umidade. Um leve, mas inconfundível, resíduo no tecido do short dela. Ele retirou a mão como se tivesse tocado em algo quente. O estômago deu um nó. Olhou para as costas dela, para o cabelo castanho espalhado no travesseiro. Ela tinha se tocado. Aqui. Enquanto ele dormia ao lado.

A vergonha veio primeiro, rápida e ardente. E depois, uma raiva surda, confusa. Era dela o corpo, claro, mas fazê-lo ali, ao lado dele… parecia um ato de violência íntima, algo que ele tinha invadido sem querer. Sentiu-se um voyeur, um estranho dentro do próprio quarto. Levantou-se em silêncio, evitando olhar para ela de novo, e foi para o banheiro trancar a porta.

Aline fingiu dormir até ouvir o chuveiro ligar. Só então abriu os olhos, a boca seca, o corpo pesado da culpa. Ele tinha sentido. Sabia. O café da manhã seria um campo minado.

Na cozinha, a televisão do sofá sussurrava notícias sobre o trânsito. Aline passou café no coador de pano, as mãos firmes demais. João entrou, de camisa azul e calça de tecido, o cabelo ainda molhado.

“Café pronto,” ela disse, sem virar.

“Hum.”

Ele se serviu, sentou à mesa de vidro. O silêncio entre eles tinha peso, textura. Era feito de coisas não ditas, de noites viradas de lado, de beijos roubados apenas na bochecha ao sair.

“Dormiu bem?” ela perguntou, levando a própria xícara à mesa.

“Mais ou menos. Acordei com calor.”

“É, estava abafado.”

Ela mordeu um pedaço de pão com manteiga, sentindo os grãos de sal na língua. João olhava fixamente para a xícara.

“Você… tá com alguma coisa?” a voz dela saiu mais alta do que pretendia.

Ele ergueu os olhos. Havia uma frieza lá que ela não via fazia tempo. “Por que perguntaria isso?”

“Não sei. Você está quieto.”

“Estou sempre quieto, Aline. A novidade seria se eu estivesse falando.”

O tom era cortante. Ela sentiu a defensiva subir, quente. “Tá bom. Esquece.”

“É, vamos esquecer.” Ele tomou um gole longo de café. “Melhor assim.”

“O que você quis dizer com isso?”

“Nada. Absolutamente nada.” Ele levantou, levando a xícara para a pia. “Vou pegar um trânsito do caralho.”

“João.”

Ele parou na porta da cozinha, as costas rígidas. “O que foi?”

As palavras morreram na garganta dela. Você sentiu, né? Sabe o que eu fiz. Era impossível. “Nada. Dirige com cuidado.”

Ele saiu sem responder. A porta da garagem roncou ao se abrir e depois fechou com um baque seco. Aline ficou ali, ouvindo o carro afastar-se. A raiva chegou então, latejante, injusta. Raiva dele por fazer ela se sentir suja. Raiva de si mesma por ter se sentido suja. Jogou o resto do pão no lixo, com força.

A academia era sua catedral de arrependimento. Colocou os fones, a música batida anulando o mundo. Cada levantamento de peso, cada corrida na esteira era um castigo para aquele corpo que tinha traído a ordem das coisas, que tinha desejado e se consumido sozinho. Suou o short de yoga até escurecer, os músculos queimando, a mente em branco. Um homem na máquina de remo olhou para ela por tempo demais. Ela sustentou o olhar até ele desviar, uma sensação de poder pequeno e vazio aquechendo seu peito.

João não ligou ao meio-dia. Ela comeu uma salada em frente à TV, mastigando lentamente, assistindo a uma novela que não via há anos. A casa era um vazio amplificado. Cada móvel, cada objeto, contava uma história de escolhas seguras, de tédio confortável. O sofá novo, aquele que o entregador de braços grossos tinha instalado, parecia agora apenas volumoso e inútil.

Ao final da tarde, a raiva dela tinha cristalizado em algo frio e pontiagudo. Quando o telefone tocou, ela atendeu esperando ouvir a voz dele, um começo de desculpa.

“Alô? Aline, sou eu, Faizan.” A voz era suave, um pouco melodiosa. O síndico.

“Ah, Faizan. Oi.”

“Tudo bem? Você parece… cansada.”

“Não, tudo ótimo.” Ela se forçou a animar o tom. “Problema no condomínio?”

“Não, não. Na verdade, era sobre a inspeção anual dos hidrantes. Preciso ter acesso à sua área de serviço amanhã durante o dia. O João estará?”

“Não. Trabalha.”

“Perfeito. Passo por aí então, por volta das onze. Não vai atrapalhar?”

“Não atrapalha não.”

“Excelente. Até amanhã, então. E Aline?”

“Sim?”

“Cuide-se. A voz parece triste.”

Ele desligou antes que ela pudesse responder. Ela ficou com o aparelho na mão, um desconforto sutil rastejando na sua nuca. Era só o síndico sendo educado. Nada mais.

Às oito da noite, João mandou uma mensagem seca: Vou tomar uma com o Ricardo. Não espere.

Ela leu a mensagem dez vezes. A raiva voltou, lava fresca. Beber com o Ricardo. O Ricardo era solteiro, vivia de festa em festa. Era um pretexto, ela sabia. João estava fugindo dela, daquele quarto, daquela umidade no short.

Foi até o quarto, puxou a gaveta da sua cômoda. Lá no fundo, embaixo de meias arrumadas, estava o vibrador cor-de-rosa, um presente de despedida de solteira que ela nunca tivera coragem de usar com João por perto. Tirou-o, olhou para o objeto silencioso. Levou-o ao banheiro, trancou a porta.

Sentou-se na borda da banheira, ligou o aparelho. Um zumbido baixo encheu o recinto acústico. Ela não se beijou, não se acariciou. Levou a ponta diretamente para o clitóris, sobre a calcinha. A vibração era intensa, impessoal, agressiva. Cerrou os dentes, os olhos fechados com força, focando só na sensação física, bruta. Queria apagar o dia, apagar a vergonha, apagar a cara fria de João na cozinha. O orgasmo veio rápido, um espasmo violento e sem graça que a deixou ofegante e vazia. Desligou o aparelho. O silêncio que voltou era ainda mais gritante.

Enquanto isso, no bar, João encostava o segundo copo de cerveja na testa fria. O lugar cheirava a amendoim torrado e chão sujo. Ricardo falava de uma garota que tinha conhecido, algo sobre o quadril dela, e João ouvia sem ouvir.

“Cê tá meio na tua, brother. Problema em casa?” Ricardo perguntou, tirando um torresmo do pratinho.

João olhou para a espuma amarela da sua cerveja. Como dizer? Como explicar que tinha sentido nojo da própria mulher, e nojo de si mesmo por sentir nojo? Como descrever a solidão esmagadora de dividir uma cama com alguém que busca prazer nas sombras, ao seu lado?

“Ah, as coisas tão meio… estranhas,” ele disse, num rompante raro.

Ricardo deu de ombros. “Mulher, né? Compilação doida. Melhor não pensar muito. Bebe aí que passa.”

João bebeu. O álcool não apagava a imagem: o short de algodão de Aline, a umidade sutil, seus próprios dedos retraindo-se como de um fogo. Ele não era um homem moderno o suficiente para aquilo? Ou era simplesmente que ela não queria ele ali, naquela parte dela? A cerveja azedou na sua boca.

Pediu uísque no terceiro round. O bar ficou mais embaçado, as vozes se fundiram num ruído de fundo. Ele não queria pensar. Não queria sentir. Queria apenas o entorpecimento sem memória.

Enquanto ele pagava a conta, um pouco cambaleante, Aline estava em pé na varanda do apartamento, olhando as luzes dos prédios vizinhos. Cada janela acesa era uma vida, um drama, um tédio diferente. Amanhã Faizan viria. A ideia, por algum motivo, não a desagradava. Havia uma pequena ponta de algo, uma curiosidade morna no estômago.

João entrou em seu carro, respirou fundo. O cheiro do interior era familiar, de café velho e ar condicionado. Ele apoiou a testa no volante. A raiva tinha cedido lugar a uma exaustão profunda. Ele não queria brigar. Só queria dormir. E, talvez, no fundo, queria que ela olhasse para ele como antes, como alguém que era desejado, e não apenas tolerado ao lado na cama.

Ligou o carro. As luzes da rua cortaram a escuridão. Ele não sabia, mas Aline, lá no apartamento, tinha acabado de guardar o vibrador de volta na gaveta, com mãos que tremiam levemente. Ela olhou para o telefone, para a mensagem dele. Não respondeu.

O apartamento entre eles era um vasto e silencioso abismo, preenchido apenas pelo zumbido distante do trânsito e pelo eco das coisas não ditas, que eram cada vez mais pesadas, e cada vez mais perigosas.

O apartamento entre eles era um vasto e silencioso abismo, preenchido apenas pelo zumbido distante do trânsito e pelo eco das coisas não ditas, que eram cada vez mais pesadas, e cada vez mais perigosas.

O som da chave na fechadura chegou depois da uma da manhã. Aline estava no sofá, a TV mudinha, um copo de vinho morno na mão. Ela ouviu o passo pesado, o jingle de chaves caindo no chão, um baque contra a parede do corredor.

João apareceu na porta da sala, desequilibrado, a camisa desbotada de suor. O cheiro do bar veio com ele—cigarro e cerveja barata e algo azedo.

“Você está acordada,” ele disse, as palavras grudadas.

“Parece que sim.”

Ele ficou ali, pendendo no batente, olhando para ela. Seus olhos eram dois buracos escuros e embaçados. A raiva dela, guardada a ferros o dia todo, começou a ranger.

“Foi bom com o Ricardo?” a pergunta saiu afiada como navalha.

“Ótimo. Ótimo, porra.” Ele arrotou, solto, e passou a mão pela boca. “A gente falou de futebol. De carro. Das putas que ele pega.”

“Que bom. Parece fascinante.”

Ele entrou na sala, andando como se o chão oscilasse. Parou em frente a ela, olhando para o copo de vinho. “E você? Se divertiu aqui sozinha?”

Ela não respondeu. Bebeu um gole lento, sustentando o olhar dele.

“O que você fez, Aline?” A voz dele engrossou, ficou carregada de um ódio bêbado. “Ficou aqui se masturbando de novo? É isso que você faz quando eu não tô? Você fica aqui, nesse sofá, com seus negócios de silicone?”

O copo quase escorregou da mão dela. O sangue bateu rápido nas têmporas. “Você tá bêbado e falando merda.”

“Tô bêbado, mas não sou cego. Eu senti. Esta manhã. Na cama. Você molhou o short todinho, não foi? E eu, o marido, ao lado, dormindo como um idiota.”

Ela se levantou, o corpo tremendo. “É meu corpo, João.”

“É!” Ele gritou, o rosto contraído. “É seu corpo! E o meu? Cadê o meu corpo nessa história, hein? Quando foi a última vez que você me quis? Quando foi a última vez que você me tocou sem ser um dever, uma obrigação de domingo?”

As palavras cortaram o ar. Aline viu a dor misturada com a raiva nos olhos dele, e por um segundo, sentiu uma pontada de algo—vergonha, talvez. Mas foi rapidamente engolfada pela defensiva.

“Você acha que é fácil? Você chega, se vira, dorme. A gente não conversa, não se toca, não se vê mais. Eu tô sozinha nesse apartamento o dia inteiro!”

“E então enfia a mão na calça pra fugir de mim!” Ele avançou, pegando seu braço. A mão dele estava quente, áspera. “É isso? Eu te dou tanto nojo assim?”

Ela tentou se soltar. “Me solta!”

“Não.” A respiração dele era quente e carregada de álcool. “Você quer toque? Você quer sentir algo? Toma.”

Ele a puxou contra o corpo dele, duro e desconexo. A boca dele desceu sobre a dela—não um beijo, mas uma colisão, um ataque. Ela lutou, um gemido abafado contra os lábios dele. Ele mordeu seu lábio inferior, ela sentiu o gosto de sangue e cachaça.

Ela empurrou seu peito. “Para!”

Ele não parou. Suas mãos desceram às pressas, agarrando a nadega dela através do shorts de seda, apertando com força. Ela conseguiu virar a cabeça. “João, para, você tá me assustando!”

João se conteve, se calou, virou e foi dormir. Caiu na cama como uma jaca.

Aline ficou imóvel na sala, o sabor do sangue e da cachaça ainda na boca. O coração batia como um pássaro preso nas costelas. Ela ouviu os roncos quase instantâneos que começaram a vir do quarto. Bêbado e inconsciente. Ela olhou para o copo de vinho, quase cheio, na mesa. Pegou-o com mão firme, levou aos lábios e tomou tudo de uma vez, o líquido agridoce queimando a garganta mas não apagando o tremor interno.

Terminou o vinho, deixou o copo vazio sobre a mesinha de centro com um clique seco. Não conseguiria deitar ao lado dele. O sofá era largo, de couro frio. Estendeu-se sobre ele, puxando um cobertor leve que cheirava a poeira. O silêncio da casa era agora diferente, carregado da violência recente, da violação que quase aconteceu. Ela fechou os olhos, forçando a respiração a acalmar. O sono, quando veio, foi um buraco negro e sem sonhos.

A luz da manhã entrou crua pela varanda, acordando-a com uma dor maçante atrás dos olhos. O apartamento estava em silêncio. Ela se sentou, o corpo dolorido do sofá. Olhou para o corredor. A porta do quarto estava aberta, a cama vazia e desfeita. João já tinha ido.

Um alívio perverso e frio lavou-a. Ela estava sozinha. O dia era seu.

O banheiro pareceu um santuário. Ligou o chuveiro, deixou a água ficar bem quente até o vapor embaçar os espelhos. Entrou, deixando a água cair forte nas costas, nos ombros tensos. Lavou o cabelo, esfregando o couro cabeludo como para limpar a memória dos dedos dele, do hálito bêbado. A água escorreu pelo corpo, e ela olhou para si mesma—os seios ainda firmes, a cintura marcada, as curvas de uma mulher de quarenta e poucos que se cuidava. Mas os olhos estavam cansados.

Ela precisava se recuperar. Cabeça erguida. E depilada.

Sentou-se na borda da banheira, enxugou uma perna, e pegou o aparelho de depilação. O zumbido era mundano, habitual. Ela passou a máquina com cuidado pela pele das pernas, o movimento automático, terapêutico. A pele lisa surgia no rastro do aparelho, uma sensação de renovação, de controle. Fez os sovacos, a linha do biquíni. Cada área tratada era um território reconquistado, limpo das assombrações da noite. Enxugou-se, passou hidratante, o cheiro limpo de amêndoas. Vestiu um roupão de algodão macio.

Na cozinha, fez um café forte. Não ligou a TV. O silêncio agora era aceitável, companheiro. Olhou para o relógio. Era quase meio-dia. A tarde talvez o síndico fosse vir ver aquele problema dos hidrantes. Faizan. O síndico atencioso, de voz suave. A ideia não era desagradável. Era um ponto no dia, algo diferente.

Enquanto isso, João encarava a planilha de Excel como se fosse uma paisagem hostil. A tela do computador emitia um brilho azulado que lhe doía nos olhos. O café da máquina da firma tinha gosto de água suja. Seu dia era um monumento ao tédio: reuniões por telefone onde ninguém dizia nada, e-mails para encaminhar, relatórios para carimbar. Cada clique do mouse era um estalo de irritação.

A imagem da noite anterior voltava em flashes—Aline lutando, o medo nos olhos dela, sua própria mão apertando a carne dela com raiva, não com desejo. Ele se sentiu um lixo. Um animal. Mas a raiva ainda estava lá, funda, fermentando. Raiva dela por tê-lo levado àquilo. Raiva de si mesmo por não saber como consertar nada.

Às cinco em ponto, ele desligou o computador sem nem salvar o que estava fazendo. Os colegas murmuravam "até amanhã", e ele acenou com a cabeça, sem responder. O carro estava um forno. Ligou o ar-condicionado no máximo e direcionou as ventoinhas para o rosto.

Não pensou em casa. Pensou no bar. No entorpecimento. Na briga que talvez pudesse continuar, se ele encontrasse coragem, ou desculpa, suficiente.

Dirigiu até o mesmo lugar de sempre, o bar sujo perto da marginal. Estacionou mal. A tarde ainda estava clara, o sol baixo enfeitando tudo com um dourado que parecia uma piada.

Dentro, o cheiro era o mesmo. O Ricardo não estava. João nem se importou. Sentou-se no mesmo banco, o couro rachado e grudento.

"O usual, seu João?" o barman perguntou, já pegando o copo de chopp.

"Hoje não. Traz uma dose de caninha. E deixa a garrafa do velho barreiro ali."

O homem ergueu uma sobrancelha mas não comentou. Trouxe a dose e a garrafa baixa e quadrada. João jogou a dose goela abaixo, sentindo o fogo descer queimando o caminho do arrependimento e da memória. Encheu o copo de novo.

A raiva, agora alimentada pelo álcool puro, começou a aquecer, a ficar viva. Ele olhou para o telefone. Nada de Aline. Nada. Ela estava em casa, com a pele lisa e cheirosa, no seu mundo silencioso onde ele era um intruso, um estorvo bêbado. Ele encheu o copo mais uma vez, a garrafa já um quarto vazia.

A tarde morria lá fora. E dentro dele também.

E dentro dele também. A garrafa estava pela metade quando o celular vibrou no bolso. Era um lembrete do calendário: Inspeção hidrantes - 11h. Ele olhou para o relógio do bar. Quase sete da noite. A inspeção tinha sido de manhã. Faizan tinha ido à sua casa. Tinha estado com a Aline. Sozinhos.

Um calafrio percorreu sua espinha, apesar do álcool. Ele imaginou o síndico, aquele homem sempre arrumado, de sorriso fácil, entrando no apartamento. Aline de roupão, talvez. Ou pior, vestida com uma daquelas blusas que ele gostava. Oferecendo café. Conversando. Rindo daquela risada baixa que ela não dava mais para ele.

Esborrachou uma nota de cinquenta na bancada e saiu, o mundo inclinando-se suavemente. Dirigiu devagar, o foco estreitando-se apenas na faixa branca da estrada. O apartamento estava escuro, menos a luz da varanda. Ele estacionou, respirou fundo. O cheiro do bar saía de seus poros. Subiu no elevador, encarando seu próprio reflexo embaçado no metal.

A chave girou com um clique alto. A entrada estava escura, mas ele sentiu antes de ver. Um cheiro diferente. Não era o seu shampoo, nem o café dela. Era um odor amadeirado, um perfume masculino caro. E por baixo, um vestígio de algo úmido e salgado, familiar e alheio.

Aline estava sentada na sala, no sofá. A TV estava desligada. Ela tinha uma taça de vinho pela metade na mão. Estava usando um vestido simples de malha cinza, um que ele gostava. O cabelo estava solto, levemente ondulado, como se tivesse sido penteado com os dedos.

“João.” A voz dela era plana.

Ele não tirou o casaco. Ficou parado no corredor. “Ele veio.”

“Quem?”

“Não me enche, Aline. O síndico. Faizan. Veio para a inspeção.”

“Ah. Sim. Veio. Tarde. Depois das cinco.”

“E?”

“E o que? Ele veio, olhou os hidrantes na área de serviço, assinou a folha e foi embora.” Ela tomou um gole de vinho, os olhos fixos na parede vazia.

Ele andou até a sala. O ar estava parado, pesado. A taça de vinho dela não era a única na mesa. Havia outra, vazia, com um círculo vermelho pálido no fundo. Dois copos. E no cinzeiro, que eles nunca usavam, um único toco de cigarro com batom. Não era o batom dela. Aline usava um vermelho escuro. Esse era rosa claro.

“Ele fumou aqui dentro.”

Aline olhou para o cinzeiro, como se o visse pela primeira vez. “Ah, é. Pediu um copo d’água depois e ficou conversando. Acendeu um cigarro. Pedi para apagar, mas ele disse que ia rápido.”

“Conversando.” A palavra saiu de seus lábios como algo podre. “Sobre o quê?”

“Nada, João! Pelo amor de Deus. Sobre o condomínio, sobre o calor. Por que esse interrogatório?” Ela se levantou, levando a taça até a cozinha. O andar dela estava diferente. Um balanço mais lento, mais consciente nos quadris.

Ele a seguiu. “Porque cheiro ele aqui. Vejo dois copos. Um cigarro de puta. E te veio com essa roupa.”

Ela virou-se de golpe, os olhos faiscando. “Essa roupa? É um vestido velho, João! O que você queria? Que eu recebesse o homem de roupão? Você some, fica o dia inteiro sem dar notícia, volta fedendo a cachaça e caçando briga. Me deixa em paz!”

Ele a agarrou pelo braço, o mesmo de ontem. Desta vez, ela não lutou. Ficou parada, olhando para a mão dele com um desprezo tão puro que ele se soltou.

“Ele te tocou?”

Ela riu, um som seco e sem humor. “Você tá louco.”

“Responde. Ele te tocou?”

Ela encarou ele, e por um segundo, ele viu algo passar nos olhos dela. Não era medo. Era algo mais escuro, mais perigoso. Era triunfo.

“Sim,” ela disse, a voz um fio de gilete. “Tocou. Me puxou para dançar no meio da sala. Depois me jogou no sofá, arrancou minha calcinha e me comeu até eu gritar. Foi isso que você quer ouvir? Foi intenso, foi sujo e foi proibido. E foi bom, João. Foi a primeira coisa que pareceu real nessa merda de covil nos últimos cinco anos.”

Ele deu um passo para trás, como se tivesse levado um soco. As palavras dela ecoavam na cozinha silenciosa. Ela mentia. Ela tinha que estar mentindo para machucá-lo.

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