Cover of A diversão do demônio

A diversão do demônio

Read the story

2 chapters · 5043 words · Read 0 times

Em uma história de ficção cientifica fantasiosa no Brasil, um casal é escolhido por um demônio, que incorpóreo, atua por meio das sutilezas da mente para atormentar o casal, que já é atormentado pelo seus próprios problemas. O demônio é Faisan, que é um lorde da perversão, e procura por rotinas para se divertir com a destruição a partir das sugestões e condicionamentos. Aline e João são um casal chato, eles são casados a 20 anos, não tem mais rotina sexual, não tem filhos e sente que estão se afastando em um rotina vazia. Faizan resolve escolher nosso casal para correr e bagunçar a vida.

Chapter 2: E o interfone toca a tarde

O silêncio após suas palavras foi absoluto. João paralisou, o rosto uma máscara de choque e descrença que se desmanchava lentamente em algo mais profundo, mais visceral. Aline segurou o olhar dele, o sabor metálico da crueldade na língua. Era uma mentira, uma mentira grotesca fabricada na fúria do momento, mas cada sílaba tinha caído como um martelo, moldando uma nova realidade no ar viciado da cozinha.

Ele não acreditou. E então, acreditou. Viu-se nos olhos dele. A certeza apodrecendo.

Ele virou-se sem uma palavra e saiu. A porta do quarto fechou-se com um clique suave, mais assustador que um estrondo.

Aline ficou de pé, tremendo, a taça de vinho ainda na mão. A adrenalina recuou, deixando um vazio gelado. Ela mentira. Por que tinha mentido daquela maneira? Para machucá-lo, sim. Para igualar a violência da noite anterior. Mas também para ver se, na destruição total, alguma coisa nova poderia brotar.

Mas a semente da mentira começou a germinar. A imagem que ela pintara—Faizan, o sofá, a violência do ato—começou a pulsar com uma vida própria na sua mente. O cheiro dele, o cigarro, o copo de vinho. O que realmente acontecera?

Ele chegara tarde, depois das cinco, como dissera. Aline abrira a porta ainda de roupão, sentindo-se exposta, mas ele apenas sorrira, educado, os olhos escuros passando por ela sem pressa.

“Desculpe o atraso, Dona Aline. O dia foi um caos.”

“Sem problemas,” ela dissera, afastando-se para deixá-lo entrar. “A área de serviço é ali.”

Ele passou por ela, e o cheiro dele a envolveu—não era perfume, era algo como terra molhada após a chuva, e tabaco caro. Ele usava um simples camisa de linho clara e calça de algodão, mas a roupa parecia assentada em um corpo alerta, contido.

Ela ficou na porta da cozinha, observando enquanto ele inspecionava os extintores e as conexões dos hidrantes. Seus movimentos eram eficientes, precisos. Ele anotou algo numa prancheta.

“Tudo em ordem,” disse ele, voltando-se. Seu olhar caiu na pia, na pilha de pratos do café da manhã, nos vestígios da briga silenciosa. “Parece um dia pesado.”

A frase foi dita com uma leveza que não condizia com o peso das palavras. Aline encolheu os ombros. “Dias normais.”

“Ah, não existem dias normais,” ele respondeu, o sorriso ainda nos lábios, mas os olhos fixos nela. “Só dias em que nos conformamos um pouco mais.” Ele pousou a prancheta na mesa. “Posso incomodar por um copo d’água?”

Ela buscou um copo, encheu-o na torneira. Quando se virou para entregar, ele estava muito mais perto do que esperava. Ela recuou um passo, sentindo o balcão frio contra as costas.

“Obrigado,” ele disse, pegando o copo. Seus dedos tocaram os dela. O toque não foi acidental. Era firme, intencional. Um choque elétrico e quente subiu pelo braço dela.

Ele bebeu um gole, os olhos fixos nela sobre a borda do copo. “Sabe, Aline… posso chamá-la de Aline? Vejo você às vezes na garagem, indo malhar. Você tem uma energia… contida. É uma pena.”

Ela tentou rir, mas o som saiu preso. “Energia? Deve ser a cafeteira nova.”

Ele não riu. Pousou o copo. O ar ao redor parecia ter ficado mais denso, mais quente. O ronco fraco do ar-condicionado sumiu, substituído por um zumbido baixo, quase inaudível, nos seus ouvidos.

“Seu marido… João, não é? Ele viaja muito?”

“Não. Não viaja.”

“Ah. Então ele está sempre por perto.” Faizan deu um passo à frente. Ele não a tocava, mas a proximidade era uma pressão física. “Deve ser difícil. Ter alguém sempre por perto e, mesmo assim, se sentir tão sozinha.”

As palavras ecoaram dentro dela com uma verdade dolorosa. “Eu não me sinto sozinha.”

“Não?” Ele inclinou a cabeça. Seus olhos pareciam escurecer, as pupilas dilatando. “Então por que seu primeiro pensamento ao acordar hoje foi sobre a mão do entregador de móveis? Aquele braço forte… imaginando como seria ser agarrada por ele.”

Ela ficou paralisada. O ar faltou. Como ele podia saber? Ela nunca contara isso a ninguém. Nunca.

“É natural,” ele sussurrou, a voz agora uma coisa melíflua que parecia vir de dentro da própria cabeça dela. “Desejar. É a coisa mais humana que existe. E a mais condenada.” Ele ergueu a mão, lentamente, e pousou a ponta do dedo indicador no centro do seu peito, sobre o tecido fino do roupão. “Aqui. É aqui que dói, não é? Essa ânsia vazia.”

Ela não conseguia se mover. O toque dele queimava, mas não era desagradável. Era como se um nó interno, apertado há anos, começasse a ser desfeito sob aquela pressão mínima.

“Você fantasia na sua mente, quando está sozinha,” ele continuou, a voz agora um murmurinho dentro do seu crânio. “Mas a fantasia é pálida. Fraca. Você merece sentir a coisa real. Merece ser preenchida de uma forma que ele nunca conseguiu.”

Seu dedo deslizou para baixo, traçando a linha entre os seus seios, até o cinto do roupão. Um calafrio violento percorreu Aline, mas não de medo. De puro, crível desejo. Era como se ele estivesse lendo um manual dos seus segredos mais sombrios e os estivesse recitando em seu ouvido como uma prece.

“Ele não te toca,” Faizan disse, e agora era a voz de João que ela ouvia, mas vinda dos lábios de Faizan, carregada de desdém. “Ele te usa. E você se esconde, se toca às escondidas, como uma garotinha assustada.”

Aline soltou um gemido. Era de vergonha. Era de excitação.

Faizan desatou o cinto do seu roupão com um puxão suave. A frente se abriu. Ela estava nua por baixo. O ar frio da cozinha tocou sua pele, arrepiando os mamilos. Ela não fez nada para se cobrir.

“Isso,” ele murmurou, agora com sua própria voz novamente, uma voz rouca de aprovação. “Nada a esconder.”

Ele a fitou, seus olhos percorrendo cada centímetro dela com uma apreciação glacial, calculista. “Deita no sofá, Aline.”

Ela obedeceu. Suas pernas a levaram até a sala, até aquele sofá de couro onde ela se deitara na noite anterior, vazia. Ela se recostou, as pernas entreabertas, o coração batendo feito um pássaro louco na gaiila do peito. Ele a observou por um momento, tirando a camisa de linho com movimentos lentos. Seu torso não era musculoso como o do entregador. Era magro, pálido, quase andrógino. Mas havia uma força latente ali, uma energia que emanava dele como calor.

Ele se ajoelhou no chão, entre suas pernas. Seus olhos não se desprendiam dos dela. “Você quer,” ele afirmou, não perguntou.

Ela só conseguiu balançar a cabeça, um pequeno movimento afirmativo.

Ele sorriu, um sorriso que não chegou aos olhos. “Então peça.”

“Por favor,” a voz saiu rouca de seus lábios.

“Por favor, o quê?”

“Por favor… me toque.”

Ele riu baixinho. “Muito educada. Diga como você pensa quando está sozinha. Diga a palavra suja.”

Ela engoliu seco. O zumbido na cabeça era alto agora, inundando tudo, afogando a razão. “Por favor… me fode.”

Ele puxou-a pelos quadris, bruscamente, até a borda do sofá. Suas mãos eram frias na sua pele quente.

Read on DreamPress