Chapter 1: Espelhos Quebrados e Desejos Revelados
A linha de veludo vermelho caía pesada atrás deles, cortando o último fio de conexão com o mundo comum. O ar mudou instantaneamente, ficando quente, denso, carregado de perfume caro e de um cheiro mais primitivo, suado, que havia sobrado das festas anteriores. João sentiu a palma da mão úmida contra a de Aline. Ela não puxou a mão dele.Ainda.
Eles pararam no alto de uma escadaria de mármore desgastado, um palco decadente. Abaixo, um salão imenso se estendia, um caverna de espelhos embaçados e luzes baixas. O teto era todo de vidro, e o brilho enferrujado da cidade vazava para dentro, pintando as silhuetas de âmbar e violeta. Música lounge, um batidão eletrônico e suave, pulsava no piso. Não era o caos de uma boate. Era um ritmo cardíaco, íntimo e constante.
"Caralho," João sussurrou, mais para ele mesmo.
"Não é o que você esperava?" Aline perguntou, sua voz estranhamente estável. Ela soltou a mão dele para ajustar a alça do vestido preto, um pedaço simples de seda que ele nunca a tinha visto usar. Ele olhou para ela, o perfil dela cortado contra a luz, e viu uma expressão que era parte fascínio, parte avaliação clínica. Como se estivesse em um museu de uma civilização estranha."É mais... discreto."
Ela soltou uma risada curta."Até agora."
Ele a seguiu até um bar alongado de ônix, onde um bartender imóvel os observava. Dois gins tônicos apareceram, gelados até transpirarem. João pegou o copo, a frioade mordendo sua pele. Era um ponto de ancoragem. Ele observou o salão. Casais conversavam em sofés baixos, rindo com uma intimidade que parecia forjada ou profundamente genuína. Um homem, sozinho, observava tudo de uma poltrona, seus dedos batendo um ritmo silencioso no braço do móvel. Havia portas ao longo das paredes, algumas entreabertas, revelando cantos mais escuros, pedaços de tecido, uma perna encostada em outra.
"Eles estão nos observando?" João murmurou, levando o copo aos lábios.
"Todo mundo está observando todo mundo. É meio que o ponto." Aline tomou um gole longo."Relaxa. Ninguém vai te abraçar sem permissão."
Era isso que o assustava? Ou era o fato de que uma parte dele, pequena e enterrada há muito tempo, queria ser abordada? Ele bebeu mais, deixando o álcool acender um rastro quente em seu peito.
"O que você acha?" ele perguntou.
Ela não respondeu de imediato. Seus olhos percorriam o ambiente, pousando em um casal mais jovem se beijando com uma languidez despreocupada perto dos fundos."É interessante. É só... gente. Pessoas comuns. Com desejos não tão comuns, talvez."
A conversa deles morreu. O silêncio entre eles foi preenchido pelos suspiros abafados da música, pelo tilintar distante de gelo, por um riso feminino que acabou em um murmúrio. João sentiu a monotonia de vinte anos pressionando seu esterno, um peso familiar. A rotina, os jantares silenciosos, a cama larga onde eles dormiam de costas um para o outro, separados por um vale de lençóis. A masturbação silenciosa dela no banheiro, o som da torneira ligada para disfarçar, que ele fingia não ouvir. A dele, rápida e funcional, frente à tela do computador. Era isso que restava?
Seu olhar vagou até um corredor lateral, menos iluminado. Havia uma placa discreta, letras brancas em relevo sobre ébano: EXPERIÊNCIAS. Abaixo, uma seta. Ele tocou o cotovelo de Aline.
"Vamos dar uma olhada ali."
O corredor era estreito, forrado a veludo, como o interior de um estojo de joias. Havia algumas portas, cada uma com uma pequena placa. SALA DE ESPERA. SALA DE EXIBIÇÃO. GLOORY HOLE.
Eles pararam diante desta última. Havia um cartaz emoldurado, elegante, com texto claro.
Cabine de Observação / Glory Hole.
Experiência sem pressão. 30 minutos.
Você pode apenas observar. Você pode participar.
Nenhuma interação necessária. A porta só abre por dentro.
Anonimato garantido.
João sentiu um nó se formar em seu estômago. A ideia era ao mesmo tempo vulgar e intensamente prática. Um espaço sem rosto, sem conversa fiada, sem as complexidades agonizantes de seduzir um estranho em um sofá. Aline estava lendo, imóvel.
"Sério?" ela finalmente disse, virando-se para ele. Seus olhos estavam muito escuros no corredor sombrio.
"É só uma ideia," João disse, sua voz soando mais áspera do que ele gostaria. "Você... você disse que queria experimentar. Sentir algo novo. É um começo. Sem compromisso, como diz ali." Ele apontou para o cartaz. "Você não precisa fazer nada. Só... estar lá. Ver se a ideia, o risco... se te excita."
"E você?" ela perguntou. "Onde você fica?"
"Eu espero.Aqui fora. Ou na sala de espera. A porta fica trancada por dentro, Aline. Você está no controle total." Ele engoliu em seco. "Diz que tem uma TV lá dentro.Um vídeo. Para... para ajudar no clima, se você quiser."
Ela ficou em silêncio por tanto tempo que ele pensou que tinha estragado tudo. Que ele tinha tornado a fantasia muito real, muito suja, muito física. Ele estava prestes a recuar, a sugerir que fossem embora, quando ela falou.
"Trinta minutos," ela disse, quase para si mesma.
"É só meia hora."
Ela olhou para a porta, depois para ele. Havia uma centelha ali, não de excitação, mas de pura, crua curiosidade. A mesma que a levava a devorar livros sobre culturas distantes, a fazer trilhas em montanhas sozinha. Era a parte dela que ele não conseguia mais alcançar.
"Tá," ela disse. A palavra foi simples, final.
O coração de João disparou. Ele não tinha planejado isso, não exatamente. Ele esperava uma conversa, uma negociação, talvez um flerte conjunto com outro casal. Isso era um salto no escuro. Ela abriu a bolsa, tirou algumas cédulas, e inseriu-as na fenda elegante ao lado da porta. Um clique eletrônico, um sinal verde.
A porta deslizou para o lado, silenciosa. Dentro, ele vislumbrou um cubículo pequeno, limpo, iluminado por uma luz roxa suave. Uma banqueta. Uma tela de TV de plasma apagada na parede oposta. E na parede à direita, uma abertura oval, à altura de um torso inclinado. Cortada em um painel de madeira escura. Ao lado, um pote de gel e alguns sachês de lenço umedecido.
Aline entrou. Ela não olhou para trás. A porta deslizou e fechou-se com um clique sólido, definitivo.
João ficou parado no corredor, a respiração presa. O som da música do salão principal era um zumbido distante. Ele olhou para a porta lisa e escura. Ela estava lá. Sozinha. Do outro lado daquela abertura, alguém poderia estar, ou não. Um estranho. Uma presença anônima.
Ele levou a mão ao bolso, sentindo o formato do seu celular. Ela não levou o dela. Ela estava totalmente desconectada, inalcançável por ele. Era isso que ele queria? Isso era reacender a paixão? Ou era apenas uma maneira sofisticada de se machucar?
Minutos se arrastaram. Cada um pesado e lento. Ele imaginou ela sentada na banqueta, rígida, observando a tela preta. Talvez ela tivesse ligado o vídeo. Que tipo de vídeo seria? Algo clínico? Algo explícito? Ele imaginou a luz da tela cintilando em seu rosto concentrado.
Ele então imaginou a abertura.Um vazio escuro. E então, uma sombra se movendo do outro lado. A sugestão de um corpo se posicionando. O oferecimento silencioso, impessoal, de pele.
Sua própria reação o chocou. Não foi apenas ciúme, um bicho verde e feio roendo suas entranhas. Foi outra coisa, mais profunda: uma solidão aguda, como se ele tivesse aberto uma gaiola e o pássaro tivesse voado sem hesitar. E, emaranhado com a solidão, um fio de pura, inadmissível excitação. A ideia dela, lá dentro, vivenciando algo que ele não podia ver ou controlar. Ela, sua Aline, naquele cubículo anônimo, talvez tocando a madeira lisa ao redor do buraco, a curiosidade vencendo o medo.
O som foi quase imperceptível. Não vindo da cabine, mas de sua própria vida desmoronando silenciosamente em um corredor forrado de veludo. Ele se encostou na parede fria, olhos fixos na porta trancada, e esperou pelos trinta minutos acabarem. O suspense não era sobre o que ela faria. Era sobre quem sairia dali quando a porta deslizasse novamente.
Era sobre quem sairia dali quando a porta deslizasse novamente.
Dentro da cabine, o mundo exterior foi engolido por um silêncio acolchoado. O som da música tornou-se um zumbido baixo, um rumor de cidade distante. Aline ficou parada por um momento, as costas pressionadas contra a porta fria, respirando o ar parado que cheirava a limpeza industrial e a um traço sutil de lenço umedecido.
A sala era pequena, mas não claustrofóbica. A luz roxa era suave, emanando de uma tira de LED atrás de um corrimão de acrílico. Havia uma cadeira estofada, larga e confortável, estofada em um veludo escuro. Ela se sentou. O tecido era frio contra a parte de trás de suas pernas.
Na parede à sua frente, a tela de plasma escura de repente cuspiu uma luz branca. Imagens apareceram, nítidas e em alta definição. Aline deu um salto.
Era uma compilação, um corte suave de clipes. Close-ups íntimos, não de rostos, mas de ação. Mãos, bocas, pieles de tons diferentes se encontrando na borda áspera de um buraco cortado em madeira compensada ou drywall. A estética era crua, mas a filmagem era profissional, bem iluminada. Interracial. Era isso que o cartaz dizia. Os detalhes eram explícitos, o som estava abafado mas presente - um gemido, um suspiro abafado, o som úmido de contato.
Ela ficou tensa. Os músculos do estômago se contraíram. Era muito real, muito súbito.
Mas então, num segundo instante, veio uma onda estranha de calma. Segurança. Ela estava completamente sozinha. A porta estava trancada por dentro. A única conexão com o mundo era aquela abertura oval e silenciosa na parede ao seu lado direito. Ela podia olhar para ela, ou não. Podia se aproximar, ou não. Ninguém a via. Ninguém sabia seu nome. Não havia expectativas, nem performance. Era só um buraco.
Ela voltou os olhos para a tela. Havia algo clinicamente fascinante naquilo. A impersonalidade era total. Era só carne. Era só função. Nenhuma das complicações que travavam seu próprio corpo na cama ao lado de João - a história, as decepções, o peso de ser conhecida.
Aline afundou na cadeira, o veludo agora aquecido pelo seu corpo. Ela cruzou os braços. Assistiu. Um casal, apenas torsos, ele negro, ela branca. A mecânica do ato parecia quase banal. Era isso que ela temia? Era isso que ela desejava?
O vídeo continuou, um loop suave. Sua respiração, que estava presa no alto do peito, começou a descer. Sua mandíbula relaxou. Ela desviou o olhar da tela para o vazio do cubículo. A abertura na parede era apenas uma forma, um quadro vazio.
Ela fechou os olhos.
O som do vídeo persistiu, um murmúrio de fundo. Mas na escuridão de suas pálpebras fechadas, o cenário mudou. Ela não estava mais na cabine roxa.
Estava no banheiro dela. O banheiro quente, iluminado apenas pela pequena janela noturna do boxe. O som era o do chuveiro ligado, o fluxo constante de água aquecendo o vidro e abafando o mundo lá fora. Sua mão, familiar e eficiente. A pressão das costas contra as frias azulejos. A fantasia, sempre a mesma, nunca um rosto, apenas uma presença, um força impessoal que a mantinha contra a parede. A liberdade estava na solidão, na completa falta de olhos sobre ela.
Era assim que seria mais tarde, se eles não tivessem saído. Se João não tivesse sugerido isso.
Agora, aqui, a porta estava trancada. A água do chuveiro era o som do vídeo. A parede de azulejo era o veludo nas costas de seus braços. E o buraco na parede... era apenas um acidente arquitetônico. Ela podia ignorá-lo. Ela estava ignorando-o.
Um suspiro longo saiu de seus lábios. Seus dedos, que estavam enterrados no veludo dos braços da cadeira, relaxaram. A tensão nos ombros começou a derreter. Ela não estava aqui para aquela abertura. Estava aqui para o anonimato, para a caixa preta onde ela podia emprestar o som do vídeo e voltar para dentro da própria cabeça. Era, de forma perversa, um refúgio. Mais privado do que seu próprio banheiro, porque nem mesmo seu marido podia adivinhar o que estava acontecendo atrás de seus olhos fechados.
O tempo lá dentro perdeu a forma. A música do salão principal era um fantasma distante. A única marcação era a pálpebra vibrante da luz da TV contra suas pálpebras fechadas, e o ritmo lento e solitário de sua própria respiração, sincronizando-se, pouco a pouco, com a dos estranhos na tela.
A única marcação era a pálpebra vibrante da luz da TV contra suas pálpebras fechadas, e o ritmo lento e solitário de sua própria respiração, sincronizando-se, pouco a pouco, com a dos estranhos na tela.
Era fácil, dentro da sua cabeça. O calor começou como uma faísca distante, um incôndio subterrâneo que a fantasia do chuveiro sempre acendia. Seu corpo, treinado por anos de solidão silenciosa, reagiu antes que sua mente pudesse censurar. Aline levou as mãos entre as pernas por reflexo, a pressão da palma contra o tecido fino da calcinha um ato tão automático quanto respirar.
Mas assim que começou a reabrir os olhos para recobrar o controle do tempo, ela percebeu que o buraco oval já não estava vazio.
O sopro de ar fresco que vinha de lá tinha cessado. O quadro escuro agora era preenchido. Algo grande e negro se insinuava para fora bem devagar, algo se animando e tomando forma. Não era uma visão brusca. Era uma revelação lenta, geométrica, à medida que se apresentava no espaço da cabine. A curva distinta de um quadril, a espessura de uma coxa. Pele. Uma pele escura como ébano polido, sob a luz roxa.
Ela ficou paralisada, a mão ainda presa contra si. A respiração travou em sua garganta.
O vídeo na tela era intenso e real. Um gemido agudo ecoou dos alto-falantes, mesclando-se com o som abafado da música do clube. A imagem cortou para um close-up, úmido e grudentoso. A forma no buraco não se moveu de forma agressiva. Ficou ali, oferecida, em exibição quieta e impossível de ignorar.
Seu coração martelou, um pássaro preso batendo as asas contra as costelas. Ela arrancou a mão de entre as pernas, como se tivesse sido queimada. Olhou para o relógio de pulso, os números digitais brilhando no escuro. 22:47. Ela tinha entrado às 22:27.
Ainda tinha 20 minutos para curtir seu momento e se descobrir.
A frase do cartaz ecoou na mente dela. Você pode apenas observar.
Ela estava observando. O contraste era brutal. A carne viva e anônima a meio metro de distância, e a gravação clínica e iluminada na tela. A realidade era infinitamente mais poderosa. Mais quieta. Mais esperando.
Uma pontada percorreu seu baixo ventre, tão profunda e repentina que ela prendeu a respiração. Não era só desejo. Era reconhecimento. Era a fantasia do chuveiro, de repente, materializada em três dimensões, sem rosto, sem história, sem as decepções entediadas do matrimônio. Era o perigo puro e simples que João, do lado de fora, jamais poderia lhe dar.
Aline não se moveu por um longo momento. Apenas respirou, o ar sibilando entre seus dentes cerrados. A forma no buraco também não se moveu. Era apenas uma presença.Uma possibilidade.
Lentamente, quase sem querer, seu olhar desceu do relógio para o pote de gel ao lado da abertura. O plástico brilhava sob a luz.
A música do salão mudou, a batida ficando mais pesada, mais profunda, sentida através do piso. O gemido na TV findou, substituído por uma respiração ofegante e acelerada.
Ela desceu da cadeira. Os joelhos estavam um pouco fracos. Ficou em pé, olhando para a abertura, para a oferta silenciosa daquela pele. Vinte minutos. Um tempo que, na vida comum, passava sem deixar marcas—o tempo de um capítulo de novela, de uma xícara de café esfriando.
Aqui, era uma eternidade.
Aline esticou a mão. Não em direção ao buraco, mas para o controle remoto na pequena prateleira sob a TV. Seus dedos encontraram o plástico. Ela apertou um botão.
O som do vídeo se desligou.
O silêncio que seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo baixo pulso da música e pelo sangue rugindo em seus ouvidos. Naquele silêncio, seu próprio fôlego pareceu alto. E então, um som novo, quase imperceptível: um leve deslizar de pele contra madeira do outro lado da parede. Um ajuste.Paciente.
Ela soltou o ar que não sabia que estava segurando. Em vez de voltar para a cadeira, ela se ajoelhou no chão forrado de carpete baixo. A altura estava perfeita agora. O ar perto da abertura era diferente—mais quente, carregado com o cheiro limpo de sabonete e algo mais terroso, masculino.
Aline olhou para o relógio de pulso uma última vez. 22:49.Dezoito minutos.
Sem pensar mais, guiada por um impulso que surgiu de um lugar mais profundo do que o racional, ela levantou a mão novamente. Desta vez, seus dedos tremulamente fizeram o caminho até a borda lisa da abertura oval. E então, ultrapassando-a, tocaram a pele quente do lado de fora. Ela instintivamente, junto ao toque, aproximou o rosto da região. O calor que a pele emanava era tão real, um cheiro de homem. Isso mexeu com ela.
Isso mexeu com ela. Um tremor percorreu seus membros, um frio quente que nasceu na nuca e desceu pela espinha. Seu pulso digital brilhou suavemente no escuro: 22:51.Quinze minutos.
O número pairou no ar, um fato sólido em meio à névoa dos sentidos. Quinze minutos de anonimato absoluto. Quinze minutos de uma liberdade que não exigia explicações, nem desculpas, nem o peso cansativo da intimidade conhecida. O poder da situação desceu sobre ela, repentino e intoxicante. Ela não era uma espectadora. Ela era a curadora desta experiência. A forma impessoal do outro lado estava à sua mercê, um convite mudo.
Ela tirou a mão, recuando alguns centímetros no carpete. Deixou seus olhos se ajustarem. A pele escura estava envolta em uma fina camada de látex translúcido, um segundo-skin brilhante sob a luz roxa. Ele havia se preparado. A racionalidade dele, sua proteção, sentira a proximidade de sua respiração e agira. Aquela precaução, aquele ato de lógica, foi o que finalmente acendeu a chama da decisão dentro dela.
Sem tocar nele, ela deslizou a mão por baixo da barra de seu vestido. A seda era fria contra suas coxas quentes. Seus próprios dedos a encontraram úmida, pronta, uma verdade humilhante e elétrica. Ela se tocou, olhos fixos no objeto oferecido, sem fazer contato. Foi a pura sugestão, a possibilidade, que a fez arfar. A ponta de seus dedos traçou círculos lentos, seu corpo arqueando levemente para a frente, uma pequena agonia de prazer contido. A cabine encheu-se com o som abafado de sua própria respiração ofegante.
Ela sabia o que queria fazer.
Tinha poder.Tinha possibilidade. Tinha quinze minutos.
O primeiro ato seria uma reivindicação.
Com movimentos deliberadamente lentos, ela puxou a mão de volta. Alcançou o pote de gel, abriu a tampa com um estalo seco no silêncio. A substância clara e fria cobriu seus dedos. Ela se ajoelhou novamente, sua sombra cruzando a abertura oval.
Sua mão esquerda se moveu primeiro, não para agarrar, mas para tocar. A ponta de um dedo gelado tocou a base, onde a pele encontrou o látex. Um teste. A forma do outro lado pareceu estremecer, uma contração mínima. Foi o único sinal. Aline sorriu, um gesto privado e feroz na escuridão.
Então, com ambas as mãos, ela se aproximou. Seus dedos, habilidosos e firmes, encontraram a borda do preservativo na base. O látex estava justo, úmido por dentro. Ela colocou as pontas dos dedos sob a borracha, sentindo o calor da pele real por um instante fugaz antes de começar a rolar.
Foi mais fácil do que ela imaginara. O material deslizou para baixo, obediente, revelando centímetro após centímetro da pele escura. O ar dentro da cabine pareceu mudar, ficando mais carregado, mais real. O cheiro alterou-se subtilmente, o aroma artificial do látex dando lugar a algo mais orgânico, mais humano. O preservativo, uma capa opaca e clínica, enrolou-se em um anel solto na base.
Ela o pegou, o objeto estranho e úmido, e o colocou de lado, no chão, longe de sua visão. Ele não tinha mais serventia.
Agora, havia apenas pele.
Seu relógio disse 22:53.Treze minutos.
O tempo se comprimiu, tornando-se precioso e elástico. Ela inclinou a cabeça, e seu cabelo caiu para frente enquanto ela fechava a distância final. A primeira vez que seus lábios tocaram a carne quente, foi com uma leveza de borboleta, um sopro de contato. O gosto era salgado, limpo, completamente desconhecido. Um gemido abafado escapou-lhe, perdendo-se na madeira.
Do outro lado, uma respiração presa foi solta, seguida por um som baixo e gutural—surpresa, aprovação, uma rendição. Era o único feedback que ela precisava.
Ela mergulhou, os quinze minutos estourando em sua boca como um foguete. Toda técnica, todo ato conjugal realizado por obrigação ou hábito, foi desmontado e reconstruído como puro instinto. Suas mãos exploraram enquanto sua boca trabalhava, tocou-a por debaixo para ser libertada do desejo, para sentir a textura familiar do seu próprio corpo contra a novidade absoluta daquele. Foi um diámetro de expressão rouca e sem palavras, um ritual que era ao mesmo tempo de dominação e de entrega. Ela controlava o ritmo, a profundidade, a pressão. Ele respondia com tremores, com a tensão do músculo, com a mão que apareceu brevemente na abertura, os dedos se agarrando à borda da madeira até que as pontas ficaram brancas, antes de desaparecer novamente.
Os minutos derreteram. Ela não olhava mais para o relógio. O tempo era medido pelas batidas de seu coração, pela crescente tensão no corpo anônimo que ela explorava, pela onda que crescia dentro dela própria, uma maré que não vinha do toque de suas mãos, mas da absoluta audácia do ato.
Quando a crise final veio, foi um tremor violento e silencioso que percorreu a forma do outro lado, um rígido-arqueado-convulsão que ela sentiu em seus lábios, em suas mãos, sua boca foi se enchendo. Ela não recuou. Permaneceu, sustentando, testemunhando a queda. Seu próprio orgasmo a atingiu um instante depois, um eco surdo e profundo que a sacudiu por dentro, fazendo com que suas pernas tremessem contra o carpete.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de ar viciado e o som do sangue nas orelhas.
Aline recuou, ofegante. A forma do outro lado permaneceu imóvel por um longo momento, antes de se retirar lentamente da abertura, desaparecendo na escuridão do cubículo adjacente. Ela ficou ajoelhada no carpete, o vestido amassado, os joelhos dormentes, ela lambeu os dedos e saboreou o sabor estranho ainda em sua língua.
O pulso digital brilhou: 23:04.
O tempo tinha acabado.
Ela se levantou, as pernas trêmulas. Enxugou a boca com as costas da mão. Olhou para o preservativo descartado no chão, um artefato estranho de um mundo anterior. Com o pé, ela o empurrou para debaixo da cadeira, para a escuridão.
Havia um lenço umedecido na prateleira. Ela o abriu e limpou meticulosamente os dedos, o queixo, qualquer vestígio. Recompôs o vestido, passou os dedos pelo cabelo. Sua respiração acalmou-se, batimento após batimento. No espelho embaçado acima da pia minúscula, seus olhos estavam muito brilhantes, suas bochechas coradas. Ela parecia… viva.
Quando a porta deslizou para abrir, o ar mais frio do corredor a atingiu como um choque. João estava ali, encostado na parede oposta, os olhos arregalados, as mãos enfiadas profundamente nos bolsos. Ele a olhou de cima a baixo, procurando por… o que? Marcas?Rasgos? Lágrimas?
“E aí?” sua voz saiu rouca. “Como foi?”
Aline passou por ele, seu salto alto ecoando com decisão no piso de mármore. Ela pegou seu casaco do balcão do bar sem parar. O cheiro do lugar—veludo, perfume, suor—agarrou-se a ela como uma segunda pele.
“Vamos embora,” ela disse, e sua voz era clara, estável, totalmente sua.
Ele a seguiu, um passo atrás, enquanto ela caminhava em direção à pesada cortina de veludo que levava de volta para o mundo comum. Ela não olhou para trás para a porta do corredor escuro, ou para os casais entrelaçados nos sofés. Ela carregava o segredo dentro de si, um caroço quente e vivo de poder.
Do lado de fora, a noite da cidade os envolveu, fria e barulhenta. Ela parou na calçada, virando o rosto para o vento. João parou ao seu lado, hesitante.
“Aline…” ele começou, mil perguntas não formuladas em uma única palavra.
Aline acendeu um cigarro que João desconhecia a origem, deu um tragada e observou o marido com a casa ao fundo. Ela olhou para ele, e pela primeira vez em anos, ele não conseguiu ler o que estava em seus olhos. Era como olhar para um estranho fascinante.
“Você está bem?” ele perguntou, finalmente. Aline se aproximou, beijou a boca dele. O gosto salgado de esperma misturado com o cigarro carregou algum fascínio, dando ao beijo molhado um sabor especial. João sorriu de satisfação, sem compreender o gosto, sentindo um forte sabor de tabaco, mas se deliciando com a nova atitude.
Ela puxou o casaco mais firme ao redor do corpo, um gesto que poderia ser de frio ou de contenção. Um táxi passou, iluminando seu perfil por um segundo.
“Eu estou ótima, é muito bom ter sua confiança." ela disse, se aproximando de João de uma forma carinhosa. A proximidade acende algo em João, um desejo. Eles se beijam, em um beijo gostoso e apaixonado. "Ainda bem que estão tudo bem amor!" João diz, apalpando a bunda da esposa discretamente. Aline em silêncio, ainda se sentindo realizada começa a andar em direção ao carro. “Você está com fome? Acho que vou pedir uma pizza quando chegarmos em casa. Algo diferente. Calabresa, talvez.”