Chapter 4: Terceiro ato
O salão principal da Luxuosa fervilhava de uma energia diferente, mais barulhenta, mais líquida. A promessa da noite VIP se cumpria em copos cheios e sorrisos largos. João e Aline beberam caipirinhas rápidas, uma depois da outra, buscando na acidez da cachaça um amolecimento para os nervos.
Ele percebeu o casal mais cedo—um homem com jeito de jogador de basquete e uma mulher de cabelo curto que olhava para Aline com um interesse descarado. “Vocês são novatos, né?” o homem perguntou, puxando conversa com um sorriso fácil.
“Dá pra ver de longe?” João riu, forçado, mas a bebida ajudava.
Trocaram algumas frases, risadas. O homem, Marcos, sugeriu uma partida de poker no lounge privativo. “Apostas baixas,” garantiu, piscando. “Ou altas, depende do que você considera moeda.”
João hesitou, mas Aline tocou seu braço. “Vai lá, aproveita. Eu vou no banheiro e procurar um cigarro.” Seu olhar era translúcido, distante.
“Tá bom,” ele aceitou, disfarçando o olhar atencioso no casal a sua frente, sentindo-se confuso, não entendo bem a situação. "ela fumava desde quando?" Ele pensou. As ideias confusas junto com as caipirinhas.
Aline afastou-se pela multidão como um barco desatracando. A música a engoliu. Ela não foi ao banheiro. Seguiu os corredores mais escuros, seu coração um martelo contra as costelas. A porta da cabine glory hole rangiu ao ser aberta.
Dentro, o cubículo era ainda mais claustrofóbico do que lembrava. O ar, pesado e quente, cheirava a suor, desinfetante barato e aquele mesmo lubrificante doce. Ela encostou a testa no metal frio da divisória, fechando os olhos.
O cheiro chegou primeiro—lavanda e tabaco, amadeirado, familiar. Seu estômago deu um nó de reconhecimento. Pelo orifício na parede, um volume negro e grosso começou a aparecer, avançando com uma lentidão deliberada. "Era ele?" Ela pensou, mais por desejo do que por acreditar que pudesse ser.
O tempo travou. Ela olhou para o relógio de pulso, iluminado pela luz fraca. Faltavam vinte e nove minutos para acabar o tempo da cabine, bem mais cedo que da última vez. Vinte e nove minutos de um limite que ela mesma não sabia qual era. A música do salão era um zumbido distante. Aqui, só existia aquele aroma, a promessa silenciosa do outro lado, e o ruído úmido e baixo de sua própria respiração.
Hoje ela não resistiria. A mão dela, trêmula, levantou-se até a sua própria boca, os dedos tocando os lábios antes de descerem, sozinhos, para o botão da sua calça. Ninguém vai saber, ecoou na sua cabeça, um sussurro que não era dela. Ela se inclinou para frente.
Os lábios encontraram a pele, um toque inicial de língua, salgada e íntima. Aline lambeu para lubrificar, ela até gostaria de se alongar, mas estava com pressa, um desejo que a fez tirar a boca, se levantar, abaixar a calça e ceder a tentativa do encaixe. De forma crua, o cheiro do perfume e o lugar faziam ela perder os limites dentro da cabine silenciosa.
Ela precisou forçar a barra, um ímpeto súbito e invasivo que rasgou um suspiro abafado de seus pulmões. Mas o seu desejo cegou sua dor, transformando-a em um ardor urgente, necessário. Ela sarou tudo com um sentimento de liberação, uma onda que limpou a hesitação e a vergonha, deixando apenas um impulso puro e animal.
O toque gentil da mão apontando a camisinha, um dedo surgindo pelo buraco para cutucar o pacote deixado ao lado, ela ignorou. Ela estava além de protocolos, além da razão, e sentiu tudo mais fundo, mais intenso, mais quente e mais líquido sem a barreira de látex. A mão retirou-se, e a sombra no buraco pareceu recuar por um instante, surpresa, antes de se entregar por completo.
Ela cedeu. O ritmo foi estabelecido, um balanço cru que batia no metal da divisória. Ela fantasiou. Não eram mais fantasias detalhadas, mas tinha rostos, as vezes Samuel estava entre eles, muitas vezes, mas as sensações eram puras: a escuridão absoluta, o anonimato perfeito, o cheiro de lavanda e tabaco impregnando seu cabelo, suas pernas já escorriam. Um mistura de prazer continuado seguia, enquanto dela escorria intensos fluídos resultantes. Ela só conseguiu parar quando soou a sinal de termino do tempo. Ela já tinha sentindo a explosão quente e molhada dentro dela. E ela mesmo assim aproveitou cada segundo junto a abertura. Ela beijou a parede em despedida, como se beija-se Samuel. E saiu porta a fora ainda ajeitando a roupa, sem tempo para se limpar.
Ela saiu diferente, o corpo úmido e os joelhos bambos, uma nova consciência pulsando em suas veias. Ao empurrar a porta enferrujada da cabine, o mundo externo retornou com o estrondo da música e o cheiro de cigarro. E na saída encontrou João, que conversava com Samuel a algum tempo com uma cerveja junto ao balcão do bar. Ela percebeu nesse instante que não era Samuel naquele quarto escuro e instantes atrás. Ela sentiu se sentindo tonta com o pensamento, sua pressão baixou e ela foi forte de novo para se manter de pé.
“Aline,” João disse, seu rosto uma mistura de perplexidade e algo mais escuro. Samuel apenas acenou com a cabeça, seu olhar percorrendo-a rapidamente, e ela sentiu o perfume dele, real e não imaginado, misturar-se ao que ainda a envolvia.
Fazendo Aline se sentir atordoada em pensar a respeito, o momento se fragmentou em mil possibilidades terríveis e excitantes. E sentindo seu ventre pulsante como um aviso de ir embora, ela engoliu seco e disse a primeira coisa que veio à mente, a voz mais rouca do que nunca. “O poker acabou cedo? Já podemos ir, certo?”
João percebe que a esposa parece abatida e resolve que o melhor, nesse momento, é fechar a noite por hoje. "Antes cedo do que tarde" ele pensa. "O casal desistiu quando viu que você não ia participar, e Samuel apareceu para trocar uma ideia..." João diz, já conduzindo a esposa pela cintura, imaginando que ela bebeu demais, e se despedindo de Samuel. "Bom, vamos nessa." João diz, conduzindo Aline até o carro, sob o olhar atento de Samuel que parece preocupado e atento. O casal volta para casa, Aline está péssima e cai na cama assim que entra em casa.
O casal finalmente está em casa. O cheiro da Luxuosa—suor, perfume barato, cigarro—ainda impregnava seus cabelos e sua pele. João ficou parado no vão da porta, observando a forma dela deitada de lado, os sapatos ainda calçados.
“Aline,” ele chamou, a voz suavizada pela escuridão do quarto. Ela não respondeu, mas ele viu o leve tremor em seus ombros. O silêncio do apartamento era agora um terceiro personagem, pesado e julgador. Ele tirou o próprio casaco, lentamente, deixando-o cair sobre a cadeira.
A mente dele rodopiava com a imagem dela saindo daquele corredor escuro, a expressão dilacerada, o encontro com Samuel. Sabia que algo profundo tinha acontecido, algo que ele não podia nomear. Em vez do ciúme que esperava, uma vontade desesperada de reconectar surgiu, brutal e simples. Ele se aproximou da cama e ajoelhou ao lado do colchão.
“Deixa eu te ajudar,” ele murmurou, seus dedos encontrando o fecho do salto de seu sapato. O toque no seu tornozelo fez Aline estremecer. Ela finalmente o olhou, seus olhos enormes na penumbra. “João, eu só quero dormir.”
“Eu sei,” ele disse, deslizando o outro sapato. “Mas sua mente não vai parar, vai?” Ela não respondeu, mas sua perna relaxou sob sua mão. Ele puxou as cobertas e deslizou para dentro da cama ao lado dela, sentindo o calor corporal misturado ao frio do choque. “Deixa eu cuidar de você hoje. Só hoje.”
Sua mão deslizou pela lateral do seu vestido de linho, encontrando o zíper nas costas. Ele o puxou com uma lentidão dolorosa. Aline deixou, seu corpo um peso inerte, mas sua respiração começou a se aprofundar. Quando o tecido se abriu, ele beijou a nuca dela, um toque de lábios secos na pele salgada. “Eu só preciso de você,” ele sussurrou contra seu pescoço, e era verdade.
Ele a virou de costas e desceu pelo seu corpo, sua boca seguindo uma trilha de reverência que não sabia há quantos anos não percorria. Aline emitiu um suspiro, suas mãos se enterrando nos cabelos dele não para guiar, mas para se ancorar. Quando sua língua finalmente a encontrou, ela estava úmida, salgada, e carregada com o resíduo estranho e íntimo da noite. João se dedicou com uma concentração feroz, uma fome que a muito ele vinha construindo. Ele abocanhava ela entre as pernas, provando dela com prazer.
Aline fechou os olhos com força. As sensações do marido—a língua conhecida, os movimentos estudados—colidiam com os flashes da cabine: o aroma de lavanda e tabaco que definitivamente não estava aqui, o volume obsceno surgindo da escuridão, a terrível e emocionante certeza de que aquelas mãos não eram as dele. Aquele pau na cabine havia transformado ela... Mas não era Samuel... O pensamento cortou-a como uma lâmina, trazendo uma onda de culpa tão forte que se transformou em puro, bruto prazer. Seu corpo arqueou, não para ele, mas para longe daquele pensamento.
João sentiu o tremor dela se iniciar, profundo e convulsivo, e redobrou seus esforços, bebendo dela com uma sede que era parte amor, parte conquista. Ela gozou em silêncio, um longo e estremecente suspiro que se transformou num choro abafado no travesseiro. Usada, gozada e inseminada por fantasias que ele nunca conheceria, ela se desfez.
Ele a abraçou depois, seu rosto molhado contra seu peito. Não trocaram palavras. O cansaço do dia, o álcool, o esgotamento emocional os venceram rapidamente. Aline adormeceu primeiro, seu corpo ainda dando espasmos ocasionais. João ficou acordado por mais alguns minutos, ouvindo sua respiração se regular, uma estranha satisfação mesclada a um vago terror enraizando-se em seu peito. Ele também estava satisfeito, e isso, por agora, era o suficiente. E feliz, cada um à sua maneira, eles dormiram.
O sono de Aline foi uma queda pesada em águas negras, mas não foi silencioso. Sonhos fractais de buracos na parede e do aroma de lavanda a perseguiram. Ela acordou de súbito, seu corpo tenso antes mesmo de a mente processar o motivo. O quarto estava opressivamente escuro, a silhueta de João era uma montanha imóvel ao seu lado.
O quarto estava opressivamente escuro, a silhueta de João era uma montanha imóvel ao seu lado. Aline levou uma mão ao próprio ventre, palpitante e quente sob o tecido do vestido amarrotado. Os dedos pressionaram levemente a carne macia abaixo do umbigo, um carinho involuntário, quase maternal, sobre a área que ainda guardava a memória fantasma da noite. Uma sensação profunda de satisfação, densa e complicada, lavou sobre ela, pesada como xarope.
Ela conseguiu voltar a dormir.
A manhã seguinte trouxe o sol filtrado pelas persianas e a rotina familiar como um véu. Aline acordou primeiro, como sempre. João ainda dormia, sua respiração rouca e regular. Ela se levantou em silêncio, retirou o vestido preto e o levou direto para o cesto de roupas sujas, tampando a tampa com um baque suave. O banho foi longo e escaldante, esfregando a pele até ficar vermelha. Nenhum pensamento a perturbou. Apenas a água e o sabonete de glicerina, neutro.
Os dias que se seguiram foram uma colagem de normalidade. Ela foi ao mercado, pagou contas online, maratonou uma série sobre vikings que João detestava. Eles jantaram macarrão com almôndegas em uma terça-feira, discutiram sobre a janela do quarto que rangia na quinta. Nada foi mencionado sobre a Luxuosa, sobre cabines, sobre a mão que apareceu no buraco ou sobre Samuel. O assunto morreu naquele quarto, enterrado sob uma camada de silêncio e lençóis limpos. A vida seguiu.
Até uma quarta-feira chuvosa, sete dias depois. A luz que entrou pelo quarto foi cinza e opaca, carregando o som contínuo da água batendo na marquise. Aline acordou com o estômago embrulhado, uma náusea suave e persistente que subia pela garganta. Ela se sentiu estranha, como se seu corpo fosse um lugar levemente desalinhado, mas não desagradável.
Ela se espreguiçou na cama vazia—João já havia saído para o trabalho, sem ruído—e deixou a mão descansar sobre o ventre. Uma pontada de algo que poderia ser ansiedade, ou antecipação, latejou ali. Sorriu para o teto. Hoje, decidiu, não pertenceria a ninguém, nem mesmo a ele.
O chão de madeira estava frio sob seus pés descalços. No banheiro, ao escovar os dentes, ela encarou seu reflexo no espelho embaçado. Os olhos pareciam um pouco fundos, mas a pele tinha um brilho. “Você é linda,” ela sussurrou para a mulher de quarenta anos à sua frente, a voz rouca pelo sono. A declaração, rara e deliberada, ecoou no azulejo.
Seu plano se formou com clareza prática. Um dia de princesa. Um dia só seu. A primeira etapa foi marcar, pelo celular, todos os serviços de uma vez: depilação completa no salão da esquina, manicure e pedicure no shopping, corte e finalização no cabeleireiro caro que ela sempre evitava. Ela passou uma blusa leve e calça de moletom, pegou sua bolsa maior.
João não ligou. Ela não mandou mensagem.
O salão de depilação cheirava a cera quente e álcool. Deitada na maca, sentindo a faixa de papel descartável crua contra a pele da coxa, Aline fechou os olhos. A primeira puxada foi um clarão de dor aguda, familiar. A segunda, já era apenas um incômodo distante. Sua mente flutuou, sem ancorar em nenhum pensamento específico, repousando na simples sensação de estar sendo cuidada, transformada.
“Tá tudo bem, minha querida? Tá bem quietinha hoje,” a atendente comentou, enrolando outra tira de cera.
“Tá ótimo,” Aline respondeu, e era verdade. Um silêncio pacífico a preenchia, uma pausa na torrente subterrânea de seus próprios desejos. Quando saiu, a chuva havia parado, deixando o ar lavado. A pele das pernas, lisa sob a calça, era um segredo delicioso contra o tecido.
No shopping, escolheu um verniz vermelho sangue para as unhas das mãos. Enquanto a manicure lixava e polia, ela folheou revistas de moda sem ver as páginas. Comprou um cafezinho caro e tomou em pé, observando as pessoas passarem. Ela se sentia leve, um pouco dissociada, como se estivesse assistindo a um filme protagonizado por si mesma.
A última parada foi na boutique. Sem hesitar, dirigiu-se às araras. Toque foi seu único critério. Pegou um vestido de seda acetinada em um azul escuro, quase preto, que deslizou como água entre seus dedos. Uma calça jeans com um corte impecável e uma blusa de seda branca. Na cabine, sob a luz crua, ela vestiu o azul. O tecido beijou suas novas curvas—o quadril, a cintura, os seios—com uma precisão que não era acidental.
O reflexo no espelho da loja era de uma estranha. Uma mulher impessoal e elegante, com um brilho nos olhos. “Fica perfeito,” a vendedora disse, e Aline apenas acenou, sabendo que não era sobre o vestido, mas sobre a pessoa que o vestia. “Levo.” Pagou com o cartão que eles usavam para despesas comuns, sem um pingo de culpa.
Quando colocou a chave na porta do apartamento, o relógio no celular marcava quase dez da noite. A escuridão dentro era quase total, só a luz fraca do corredor vinda do banheiro. Ela entrou em silêncio, deixando as sacolas caírem no sofá.
O cheiro a atingiu primeiro. Cachaça barata e um leve aroma de vômito limpo. João estava estendido no sofá da sala, vestindo a mesma camisa social do dia, desbotada agora. Um copo vazio estava no chão ao lado dele. Ele dormia profundamente, a respiração era um ronco úmido e irregular, a boca entreaberta. Parecia mais velho, amassado. Aline observou-o por um minuto, sem piedade, sem raiva. Um objeto de estudo.
Ela foi até o quarto, tirou as novas roupas e as pendurou com cuidado no guarda-roupa. Vestiu um roupão de cetim e voltou para a sala. Passou por ele, foi até a cozinha, e encheu a chaleira para um chá. O clique do interruptor da luz da bancada pareceu explosivo.
O barulho o acordou. “Al… Aline?” a voz dele era espessa, arrastada. Ele tentou se sentar, esfregando o rosto.
“Tá tudo bem,” ela disse, sem virar-se, tirando uma xícara do armário.
“Que horas são?”
“Dez e meia.”
Ele fungou, tentando se recompor. “Desculpa. O jantar com o cliente… desandou.”
“Imagino.” A água ferveu. Ela derramou sobre o sachê de camomila, observando o vapor subir. “Comi fora. Tem lasanha congelada se tiver com fome.”
Ele a observou, confuso, tentando decifrar seu tom plano. “Você… fez o quê hoje?”
“Coisas.” Ela finalmente se virou, apoiada na bancada, segurando a xícara quente com as duas mãos. O roupão estava levemente aberto no colo. A luz da cozinha iluminava a linha lisa de suas pernas, o brilho da pele recém-depilada. “Fiz unha, cabelo, comprei umas roupas. Um dia normal.”
João ficou em silêncio, seu cérebro embaralhado pelo álcool lutando para processar. A normalidade que ela descrevia era um muro. Ele podia sentir a distância, física e química, como uma corrente de ar frio. “Parece… parece bom.”
“Foi.” Ela deu um gole no chá. “Vou tomar banho. Melhor você beber água.”
Ele a viu sair da cozinha, o roupão flutuando levemente atrás dela. A solidão que sentiu então foi mais aguda que a ressaca. O apartamento, cheio das suas novas compras e do seu novo cheiro, parecia território dela. Ele permaneceu no sofá, ouvindo o som da água do chuveiro começar a correr.
Dentro do box, Aline deixou a água quente cair sobre seus ombros, lavando o dia. O enjoo matinal tinha sumido, substituído por uma lucidez eléctrica. Ela se pegou pensando, e os pensamentos eram ousados, desenfreados. João estava ali, incapacitado, um fantoma no sofá. Eram dez e meia de uma quarta-feira comum. O mundo lá fora estava escuro e molhado.
Tudo era possível. Ela podia vestir o novo azul, sair pela porta, e dirigir até a Luxuosa só para ver quem estava lá em uma noite de semana morna. Podia enviar uma mensagem para aquele perfil da página, um simples “Oi”. Podia deitar na cama grande e vazia e recriar, com seus próprios dedos, cada segundo da cabine, mas dessa vez dando um rosto definitivo à sombra. Ou podia simplesmente terminar seu chá, secar o cabelo, e dormir.
Até nada era possível. E ainda eram dez e meia. O dia de princesa havia acabado, mas a noite, longa e úmida, pertencia inteiramente a ela. A decisão pairava no vapor do banheiro, não como um peso, mas como um leque de cores vibrantes aguardando seu toque.
A decisão pairava no vapor do banheiro, não como um peso, mas como um leque de cores vibrantes aguardando seu toque. Ela saiu do banho, passou pelo marado João no sofá sem um olhar, e foi direto para a adega improvisada no armário da cozinha. Sua mão encontrou a garrafa de tinto argentino atrás das latas de ervilha, e ela pegou também o saquinho plástico com a maconha, um presente verde e seco da manicure.
Sentou-se no chão da sala, com as costas contra o sofá onde ele roncava, e encheu a seda com dedos precisos. O isqueiro estalou, uma chama laranja que iluminou seus dedos por um segundo antes de tocar a ponta enrolada. A primeira tragada foi profunda, queimando a garganta, seguida por um gole longo do vinho que sabia a frutas escuras e terra.
A fumaça e o álcool se encontraram na sua cabeça, dissolvendo os últimos fios de tensão. Ela arrastou-se até a janela, abriu a cortina, e sentou no parapeito, a garrafa entre as pernas. O apartamento do vizinho do andar de cima estava iluminado, e ela viu a silhueta dele parada na cozinha, olhando para baixo.
Ela sustentou o olhar. Deixou o roupão de cetim abrir um pouco mais. O vinho era aveludado na língua, e a fumaça doce suavizava as bordas de tudo. Ela era um quadro vivo, e ele, um espectador anônimo; a troca era impessoal e perfeita.
Não importava. Nada importava, nem o casamento adormecido ao seu lado, nem a gravidade daquela terça-feira na cabine. O baseado diminuía entre seus dedos, cada tragada aprofundando uma paz indiferente e plena. Quando a ponta final brilhou pela última vez, ela a esmagou no pires.
Seu corpo era seu. A mão deslizou sob o cetim, achando a pele quente do ventre. A memória veio crua, não como um filme, mas como uma série de sensações físicas: o metal áspero, o cheiro de lavanda, o volume que preencheu um vazio que ela nem sabia ter. Seus dedos começaram a circular, lentamente, alimentando o pensamento, alimentando a pontada real que já anunciava sua própria verdade.