Chapter 2: A segunda noite
A semana que se seguiu foi estranha. Não houve conversa sobre a noite. Nenhum grande desfecho dramático. A vida continuou—o trabalho, as contas, o silêncio elástico da casa à noite. Mas algo havia se deslocado, como uma mobília rearrumada no escuro. Você esbarrava nas bordas.
João se pegava observando Aline. Ela parecia ocupada, mas não de uma forma agitada. Era uma ocupação interior. Ela lavava a louça com uma concentração intensa, seus olhos fixos na espiral de água quente. Ela se sentava no sofá com um livro aberto no colo, mas ele notava que ela não virava páginas por longos minutos. E o beijo, aquele beijo no táxi. Ele ainda sentia o gosto forte do cigarro, mas havia algo por trás disso, um salgado estranho que ele não conseguiu identificar. Ele engoliu a pergunta junto com o café.
Ele próprio estava inquieto. A memória daquela porta fechada, dos trinta minutos de absoluta incerteza, agora vinha acompanhada de uma nova imagem: ela saindo, os olhos brilhantes, aquele "Vamos embora" final. Não era o que ele esperava. Ele esperava… ele não sabia. Lágrimas? Arrependimento? Um relato excitado e sujo? O silêncio dela era mais desconcertante do que qualquer uma dessas coisas.
Foi ela quem trouxe o assunto de volta, numa quinta-feira à noite, diante de um prato de macarrão sem graça.
"Você pensou mais naquilo?" ela perguntou, espetando um tomatinho com o garfo.
"Na casa?" Ele colocou o garfo. "Pensei. E você?"
"Eu fiquei pensando na tal cabine," ela disse, olhando para o prato. "Em como é seguro. Você está trancado. É só você e… o que quer que esteja do outro lado. Ninguém te vê. Ninguém te toca, a não ser que você queira." Ela finalmente olhou para ele. "Foi libertador, de um jeito doente."
João sentiu um frio na nuca. Libertador. A palavra pairou entre eles.
"Quer dizer que você… participou?" A pergunta saiu antes que ele pudesse pará-la.
Ela deu de ombros, um movimento quase imperceptível. "Eu experienciei. Foi diferente." Um sorriso pequeno brincou em seus lábios. "Você devia tentar."
Ele ficou atordoado. "Eu?"
"Por que não? Ficar do outro lado. Ver como é. Você sempre fala sobre explorar coisas novas, sobre sentir mais emoção." Ela encostou-se na cadeira, estudando-o. "É só meia hora, João. Você fala, mas no fim fica só no discurso."
O desafio na voz dela era novidade. Um farpas.
"Achei que a ideia era fazermos algo juntos," ele argumentou, sentindo-se frouxo.
"E é. Estaremos juntos na mesma casa. Eu vou ficar por perto. Mas a experiência é individual. Intransferível." Ela bebeu um gole de água. "Além do mais, dizem que tem versões com… buracos para os dois lados, né? Tem mulheres lá também. Você pode só observar, lembra? Você mesmo disse isso pra mim."
Ele sabia que ela estava mentindo. Havia uma certeza no tom dela, uma malícia sutíl. Ela estava pregando uma peça nele, ou testando-o, ou ambos. A menção a "mulheres lá" era uma isca óbvia, quase infantil. E ainda assim, funcionou. Uma ponta de curiosidade doentia cutucou seu estômago. Como era estar do outro lado daquela parede? Ser o objeto anônimo? A possibilidade era, ao mesmo tempo, humilhante e vertiginosamente excitante.
A segunda noite começou mais confortável.
Não houve a tensão silenciosa do primeiro encontro. Eles sabiam o ritual. A pesada cortina de veludo, o bartender imóvel, o ar carregado. Desta vez, João notou mais detalhes. As paredes de espelho ao fundo do salão principal eram, na verdade, espiãs. De certos ângulos, você via o reflexo de salas privadas atrás delas, sombras se movendo. Lustres de cristal grotescos pendiam do teto, seus pingentes não eram cristais, mas gotas de resina avermelhada que lembravam vinho grosso ou sangue velho. O cheiro era mais complexo também: perfume caro sim, mas por baixo havia um aroma de madeira encerada, couro e um suor seco, antigo, que impregna os estofados.
Aline estava diferente. Vestia um robe curto de cetim preto sobre um body rendado, sapatos altíssimos. Ela parecia à vontade, como se pertencesse àquele cenário decadente. Ela puxou João pelo braço, direto para o corredor das "experiências".
A cabine de Glory Hole estava lá, a mesma porta discreta.
"Vai," ela disse, seu tom era de incentivo, mas seus olhos brilhavam com algo mais próximo da diversão cruel. "Trinta minutos. Eu vou tomar um drink, observar um pouco do salão. A gente se encontra depois." Ela encostou-se nele, sussurrou no ouvido. "E não fica com vergonha. Lembre-se: anonimato. Ninguém sabe quem você é. Você pode ser qualquer um."
Ela enfiou algumas cédulas na sua mão. O toque dos seus dedos estava gelado.
João olhou para a porta, depois para ela. O pulso acelerou. Era um teste. Para ele, para o casamento, para o homem que ele achava que era. Ele assentiu, um movimento seco da cabeça.
O processo era idêntico. O dinheiro inserido, o clique, a porta deslizando. Ele entrou no cubículo roxo.
O espaço era menor do que ele imaginava. O mesmo cheiro de limpeza agressiva. A banqueta estofada. A TV já ligada, exibindo o mesmo loop profissional de close-ups anônimos. E na parede à direita, a abertura oval. Desta vez, vazia. Um vazio escuro que o observava.
Ele sentou. As pernas tremiam levemente. A música do clube era um zumbido surdo através das paredes. Ele tentou se concentrar no vídeo, nas imagens clínicas de prazer, mas seus olhos eram puxados para o buraco. Era apenas um buraco. Uma passagem para o nada.
Tem mulheres lá também. A mentira de Aline ecoou em sua mente. Ele sabia que era mentira. Esta cabine era para um tipo específico de experiência. Mas a ideia, a possibilidade fantasiosa, plantou uma semente. E se? E se do outro lado houvesse uma mulher? Curiosa, anônima, desinibida pela escuridão? Sua própria reação a esse pensamento—uma leve ereção sob a calça—o envergonhou e o excitou ao mesmo tempo.
Os minutos passaram. A inércia era opressiva. Ele era apenas um homem sentado no escuro, pagando para… esperar. O absurdo da situação atingiu-o como um soco no estômago. Ele era um voyeur invertido, pagando para ser o espetáculo potencial.
Ele se levantou, andou os dois passos até a abertura. Colocou as mãos na borda fria da madeira. Inclinou-se, cheirou. Apenas ar estagnado e um traço fraco de desinfetante.
Foi então que ouviu. Não do outro lado da sua parede, mas de trás dele. Um som abafado através da divisória da cabine ao lado. Um gemido feminino, baixo, rouco. Autêntico. Não era da TV.
O coração dele disparou. Aline? Era impossível. Ela disse que iria para o salão. Mas quem mais?
O gemido se repetiu, seguido por um som de madeira rangendo levemente, como se alguém estivesse se apoiando na parede. Ele ficou paralisado. A realidade da cabine ao lado, com outra pessoa—talvez uma mulher—vivenciando sua própria versão daquela fantasia, era avassaladoramente íntima. Ele era um intruso nessa intimidade, mesmo através da parede.
Ele olhou novamente para o buraco vazio em sua própria cabine. A quietude do seu lado era agora uma acusação. O gemido da mulher na cabine ao lado tornou-se um convite oblíquo, uma provocação. Ele não podia vê-la. Ela não sabia que ele estava ali. Mas ele a ouvia.
Lentamente, quase contra a própria vontade, sua mão desceu para a frente da calça. A excitação agora era uma pressão insistente, alimentada pelo segredo, pelo som, pelo anonimato. Ele se tocou através do tecido. Foi um ato mecânico, solitário, não diferente de tantas outras noites em frente ao computador.
Mas o contexto mudava tudo. Aquele não era seu quarto escuro. Era um cubículo pago, ao lado de um estranho que gemia. Ele estava participando de um ritual coletivo de solidão.
Fechou os olhos. Na escuridão, os gemidos pareciam mais altos. Ele imaginou uma mulher do outro lado da parede, seus dedos trabalhando, seus lábios entreabertos. Não a face dela—ele não ousou dar-lhe um rosto de Aline. Era apenas uma silhueta, uma presença vocal.
Seu ritmo acelerou. A respiração ficou ofegante. A humilhação inicial transformou-se em algo mais primitivo, uma sensação de estar-se expondo, mesmo que ninguém pudesse ver. Era como se os gemidos da mulher fossem para ele, como se sua própria mão fosse a dela.
Ele estava perto, o calor subindo em uma onda pesada, quando um novo som o fez estacar.
Do outro lado do buraco oval, na sua própria cabine, não na parede ao lado, ele ouviu um movimento. Suave. Algo ou alguém acabara de entrar no cubículo adjacente a ele.
Tudo parou. Sua mão congelou. A respiração da mulher na cabine ao lado pareceu também silenciar, como se ela também tivesse ouvido.
João abriu os olhos e virou a cabeça lentamente em direção à abertura.
A escuridão atrás do buraco não era mais vazia. Havia uma presença lá. Ele não via um corpo, mas sentia o deslocamento do ar, um bloqueio da luz ambiente que vinha de trás. Alguém estava ali, parado, observando o vazio que ele ocupava.
O pulso batia em suas têmporas. Ele se afastou da parede da cabine ao lado, seu prazer evaporando em um instante, substituído por puro pavor. Quem era? Por que estava parado? Estaria esperando que ele fizesse alguma coisa?
A mensagem do cartaz ecoou em sua mente: Você pode apenas observar.
Ele era agora o observado.
O tempo ficou pesado, lento. A presença atrás do buraco não se movia. Era apenas uma sombra estática, um testemunho mudo de sua vulnerabilidade. A ironia era brutal. Ele, que trouxera Aline para esse lugar, que a incentivara a entrar aqui, estava agora sentado no escuro, com as calças desapertadas, seus desejos mais baixos expostos a um estranho oculto.
E Aline? Onde estava ela? Observando o salão? Ou seria ela, por algum motivo perverso, a sombra atrás da parede? A ideia foi tão aterrorizante quanto excitante. Ele rejeitou-a. Não, era impossível.
Um minuto se passou. Dois. O gemido da mulher na cabine ao lado não retornou. O silêncio era total, cortado apenas pelo zumbido baixo da música.
Então, a sombra atrás do buraco se moveu.
Não se aproximou. Recuou. Ele ouviu o leve arrastar de pés, o som da porta da cabine adjacente deslizando e fechando-se. A pessoa foi embora.
João ficou sozinho novamente. A onda de alívio foi tão intensa quanto o medo anterior. Sua excitação tinha desaparecido completamente, deixando para trás um vazio frio e nauseante. Ele se recompôs às pressas, as mãos trêmulas fechando o zíper, afivelando o cinto.
Olhou para o relógio. Faltavam dez minutos. Ele não aguentaria mais dez segundos.
Ele se levantou e caminhou até a porta. Não havia maçaneta por dentro, apenas um botão de saída de emergência, verde e brilhante. Apertá-lo soaria um alarme? Ele não se importava.
Antes de pressionar o botão, seus olhos pousaram na TV. O vídeo continuava seu loop silencioso. Uma close-up de um par de lábios femininos, pintados de vermelho-vivo, se aproximando de uma abertura na madeira.
Um pensamento lúcido e terrível cruzou sua mente: aquela mulher na cabine ao lado… ela poderia ter sido a pessoa atrás do buraco dele? Ela poderia ter saído de sua cabine e entrado na adjacente para observá-lo, para vê-lo se humilhar?
O nojo por si mesmo subiu em sua garganta, azedo e quente.
Ele apertou o botão verde. Um bipe baixo soou e a porta deslizou aberta. A luz do corredor, mais amarela, invadiu o cubículo roxo, banhando-o em uma claridade comum e crua.
Ele saiu, ofegante, sentindo-se sujo, exposto, um tolo. O corredor estava vazio. Não havia sinal de Aline.
Ele caminhou em direção ao salão principal, suas pernas sentindo-se como de borracha. O luxo decadente do lugar agora lhe parecia falso, uma casca caríssima cobrindo um vazio profundo.
E então, ele a viu.
Aline estava no bar, sentada em um banco alto. Ela não estava sozinha. Um homem, mais velho um homem negro estava junto a ela, "talvez importunando ela?" João pensou. Aline parecia linda demais naquele ângulo.
Aline parecia linda demais naquele ângulo. A luz dos lustres caía sobre seus ombros nus, e ela riu de algo que o homem ao seu lado disse, um som leve que João quase não reconheceu. O homem era mais velho, talvez sessenta anos, com um porte grande que preenchia o espaço ao seu redor. Sua pele era muito escura, contrastando com o terno de linho claro. Ele não tocava nela, nem se inclinava de forma invasiva. Apenas conversava, com uma calma ancestral que parecia afastar o burburinho do salão.
João parou, ainda ofegante do corredor, e observou. O nó de ciúme que esperava sentir não veio. Em seu lugar, surgiu uma curiosidade ácida. Quem era aquele homem? O que Aline, com seus olhos ainda brilhantes do segredo da cabine, poderia encontrar para conversar com um estranho idoso? Ele deu um passo para frente, as pernas pesadas. Foi então que a cena diante dele pareceu desfocar-se, e o tempo se dobrou para trás, revelando os minutos que ele não tinha vivido.
Aline tinha caminhado até o bar minutos antes, o som da porta da cabine de João se fechando ecoando em seus ouvidos. O cetim de seu robe sussurrava contra suas pernas. Ela sentou no banco alto, sentindo o frio do couro através da fina renda do body. Ordenou um gim tônica. O bartender, o mesmo homem impassível, serviu-a sem um piscar de olhos.
Ela olhou para o salão principal, tentando não pensar no que João poderia estar fazendo, ou sentindo, ou temendo, atrás daquela porta. A mentira sobre as mulheres nas cabines havia sido uma vingança sutil, doce. Deixá-lo esperando, imaginando, como ela ficara na primeira vez. Agora, era sua vez de esperar. Ela bebeu um gole, o gelo tilintando contra os dentes. A bebida era forte.Boa.
Foi quando sentiu o peso de um olhar. Não um olhar voraz, mas ponderado. Ela virou a cabeça lentamente. Um homem mais velho, de terno de linho impecável e cabelos grisalhos muito curtos, estava alguns metros dela, cercado por um pequeno grupo de pessoas bem-vestidas. Ele não a encarava. Apenas a observava, com a atenção serena de um leão sob uma árvore. Seus olhos encontraram os dela e ele assentiu, uma inclinação quase imperceptível da cabeça. Então, desprendeu-se do grupo e caminhou em sua direção.
Ele não parecia se aproximar. Parecia ocupar o espaço ao seu lado, naturalmente, como se chegasse para um encontro marcado. Seu porte era grande, sólido, e carregava os seus possíveis cinquenta e nove anos com uma autoridade que não era agressiva, mas firme, como a raiz de uma árvore velha.
“Boa noite,” disse ele, sua voz era um baixo profundo, com um sotaque suave que não era do Rio. “Posso?” Indicou o banco vazio ao lado dela.
“A casa é livre,” Aline respondeu, tentando soar despretensiosa.
"Sobre a casa mesmo que eu queria perguntar." Ele disse despretensiosamente. "Sou Samuel, sócio do estabelecimento. O que está achando?" Ele diz, enquanto com um sinal discreto, e longe dos olhos de Aline, ele deixa o bartender ciente de que toda a bebida para ela seria por conta da casa hoje. "Espero de verdade que tenha gostado, mesmo vendo você sozinha aqui. Eu mesmo aprecio os momentos de solidão, tão quanto aprecio uma boa conversa." Samuel diz, recebendo dois drinks do bartender e entregando um para Aline.
Samuel deslizou o copo em sua direção com um gesto suave. O gelo tilintou contra o cristal. “Não costumo abordar os clientes assim, mas você tinha um ar… pensativa,” ele disse, seu sotaque arrastado revelando um nordeste distante. “Não um ar perdido. Um ar de quem sabe exatamente onde está, mas está se perguntando o porquê.”
Aline aceitou o drink. “É uma observação astuta.”
“É o negócio. Observar é o verdadeiro produto aqui.” Ele sentou-se, não muito perto, mantendo uma distância confortável. Seu perfume chegou até ela: um amadeirado limpo, com fundo de lavanda e tabaco. Aline piscou. Era exatamente o cheiro do avô Antônio, aquele cheiro que envolvia você nos abraços largos dele na fazenda, cheiro de sabonete barato, a barba que arranhava, o fumo de rolo e um carinho que não precisava de palavras.
“Trabalho de Sherlock Holmes,” ela brincou, mas a familiaridade do cheiro fez com que seus ombros, que ela nem sabia estar tensos, se relaxassem um milímetro.
Samuel riu, um som grave e quente que parecia vir do peito. “Sherlock vendia bem menos bebida do que eu. Aproveite. Por conta da casa.”
Ele não pressionou. Não fez perguntas. Simplesmente começou a falar sobre a própria casa, sobre a arquitetura do prédio que antes fora um casarão da década de 1920, sobre os espelhos verdadeiros vindos da França. Era uma conversa tranqüila, despretensiosa, como aquelas que ela tinha na varanda com seu avô, onde os silêncios também faziam parte do diálogo. O barulho do salão pareceu recuar, abafado pela presença calma dele.
Ela tomou seu drink. O tempo se dissolveu. Quando percebeu, o primeiro copo estava vazio e outro aparecia, trazido pelo bartender silencioso. Samuel falava de viagens, de coisas simples, nada que a forçasse a uma resposta elaborada.
“Minha primeira vez em Paris, quase fui expulso do Louvre por rir alto demais,” ele confessou, os olhos cheios de rugas franzindo-se de humor. “É um lugar cheio de gente séria, né? Tudo aquela beleza, e ninguém pode soltar uma gargalhada.”
Aline riu, um som genuíno que raramente saía naquela casa nos últimos anos. “Meu avô era assim. Ele achava graça nos lugares mais sérios.”
Samuel a observou, um sorriso compreensivo nos lábios. “Os avôs sábios são isso. Nos ensinam que a leveza não é falta de respeito. É um tipo de respeito diferente.”
A terceira taça veio. E depois uma quarta. Era fácil. Era como afundar em um banco de nuvens. Ela não falava sobre o que acontecera na cabine, e ele não perguntava. Eles só citaram João quando ele perguntou se ela estava mesmo sozinha, e ela disse o nome do marido. Falavam de comida, de música velha, do cheiro da terra depois da chuva. O charme paternal dele era uma cerca protetora, um antídoto contra a luxúria crua do ambiente. Aquilo não era flerte. Era um porto seguro.
O ritmo contínuo e relaxante foi quebrado por uma presença desengonçada ao lado dela. Aline piscou, girando no banco. João estava ali, a pele pálida, as roupas levemente amarrotadas. Ele parecia uma criatura arrancada de um lugar úmido e jogada sob um holofote.
“João!” ela disse, sua voz um pouco mais alta e solta do que pretendia. O mundo do salão, com seus risos abafados e seu peso de desejo, voltou a inundar seus sentidos de repente. “Já acabou?”
João a olhou, depois olhou para Samuel, seus olhos estreitando-se numa avaliação rápida e desconfiada. “Acabou,” ele disse, a palavra curta e seca.
Aline colocou a mão no braço de Samuel com uma naturalidade que surpreendeu a si mesma. “João, este é o Samuel. Ele é dono deste lugar incrível. Samuel, meu marido, João.”
Samuel levantou-se com uma elegância natural, estendendo a mão. “Muito prazer, João. Sua esposa é uma conversadora encantadora.”
João apertou a mão dele, a expressão um esforço visível para ser civilizado. “O prazer é meu,” ele mentiu, a voz metálica.
“Vocês são um casal interessante,” Samuel comentou, sua voz ainda calma. “A energia é diferente. Rara.” Ele olhou para Aline, e seu sorriso era gentil, quase paternal. “Você tem um coração curioso, Aline. É um presente. Mas cuidado onde ele te leva.” O aviso foi suave, não uma ameaça, mas um conselho de quem já viu muita coisa.
Ele deu um passo para trás. “Agora vou deixá-los. A noite é de vocês.” Ele acenou com a cabeça para ambos, um gesto de cavalheiro antigo, e desapareceu entre as sombras perto do bar, sua figura grande fundindo-se com a escuridão decorativa.
João tomou o lugar que ele deixou vazio. O banco ainda estava quente. “Bem amigável o dono,” ele disse, pedindo um uísque para o bartender com um gesto brusco.
“É um homem gentil,” Aline respondeu, sentindo a falta daquelas horas tranquilas como se fossem um cobertor retirado num dia frio. O sexto drink, um que ela nem lembrava de ter pedido, estava meio vazio à sua frente. A cabeça estava leve, o corpo flutuando numa bolha de gim e segurança perdida. “Como foi lá dentro?”
João golpeou o uísque, evitando seu olhar. “Claustrofóbico. Bizarro.” Ele encarou o copo.“E você? Aprendendo a história da arte deco do lugar?”
O sarcasmo era grosso e desajeitado. Aline sentiu um fio de raiva subir, misturado à embriaguez. “Estava tendo uma conversa, João. Algo que a gente quase não faz mais.”
Ele a olhou, finalmente, e Aline viu a ferida ali, crua e humilhada. A experiência dele tinha sido o oposto da dela. Ela sentiu um lampejo rápido de satisfação mesquinha, seguido por uma culpa pegajosa.
“Vamos embora,” João disse, o cansaço limpando o rancor de sua voz. “Este lugar me dá náusea.”
Aline assentiu. Ela já estava exausta daquele teatro, da tensão entre eles. A bolha de leveza estourara. “Sim. Vamos.”
A viagem de carro foi feita em silêncio. João dirigia com uma rigidez que transmitia sua raiva contida. Aline encostou a cabeça no vidro frio da janela, observando os pontos de luz da cidade desfilarem, borrados pelo álcool. O cheiro de Samuel ainda estava nela, um fantasma de lavanda e infância sobre sua pele, e ela fechou os olhos para tentar mantê-lo.
No apartamento, a rotina os engoliu. João foi direto para o banheiro, o som do chuveiro enchendo o corredor. Aline cambaleou até o quarto, deixando o robe de cetim cair no chão como uma pétala murcha. Ela caiu na cama, sobre os lençóis, sentindo o mundo girar suavemente.
O álcool era um cobertor pesado e quente. João saiu do banheiro, um vapor quente seguindo-o. Ele se deitou ao seu lado, de costas, e dentro de dois minutos sua respiração já era profunda e regular, um zumbido monótono que marcava o ritmo do sono.
Aline ficou ali, olhando para o padrão de sombras no teto. A quietude da casa era opressiva. Mas dentro dela, tudo pulsava. A memória daquela noite não era do rosto amoroso de seu marido. Era o cheiro do veludo na cabine. O silêncio ansioso na porta antes de entrar. A curva silenciosa de joelhos contra carpete. O anonimato gelado do gel na prateleira.
Era o peso daquela presença quente contra seus lábios, tão diferente de tudo que ela conhecia. Era o som da respiração do outro, o tremor, a rendição silenciosa a que ela tinha conduzido.
Seu coração martelou contra as costelas. Um calor, distinto do calor do álcool, começou a se acumular em seu ventre, uma coceira insistente e profunda. João roncou suavemente ao seu lado, uma paisagem familiar e adormecida.
Sua mão deslizou para baixo das cobertas, quase sem seu comando consciente. A renda do body raspou contra sua pele, irritante, sensitiva. Ela fechou os olhos.
Sob as pálpebras, não estava o rosto de um estranho da cabine. Era a imagem de Samuel. A solidez tranquila dele no banco. A maneira como ele segurava o copo, com as mãos grandes e seguras. O perfume do avô Antônio. Mas então o rosto se fundia, deslizava. Não era mais Samuel, nem o avô. Era o vazio oval da cabine, e um hipotético, e o corpo forte, anônimo, se apresentando, se confundido com o próprio vazio nela, no ventre, entre as pernas tremulas.
A mão dela se moveu com urgência, fruto da embriaguez e da confusão. A pressão era firme, familiar em sua técnica, mas o cenário em sua mente era proibido. As palavras que ele murmurou roncando podiam ser qualquer coisa, ela via os lábios dele dizendo que o perdoava, que gosta, que ela deveria tentar. Sua respiração ficou mais rápida, ofegante, abafada no travesseiro. Ela mordeu o lábio, reprimindo um som. O contraste era brutal: a realidade física de seu marido adormecido a centímetros de distância, e a tela de fantasias proibidas se desenrolando em sua mente com uma clareza intoxicante. O orgasmo veio rápido e intenso, um tremor silencioso e profundo que a sacudiu por dentro. Ela ficou imóvel, os olhos arregalados para o escuro, envergonhada e vitoriosa. O corpo relaxou, mas sua mente, agora clara e sóbria pelo choque do que fizera, continuou girando. O cheiro de Samuel ainda pairava na sua pele, misturando-se ao de João, ao seu próprio cheiro. E ela pensou, com uma clareza devastadora, que aquele lugar decadente não era sobre sexo. Era sobre olhar para o abismo de si mesma e descobrir que gostava do que via refletido ali.