Chapter 3: Rotina da vida
Os dias que se seguiram foram uma curiosa inversão. O silêncio no apartamento não era mais vazio, mas denso, carregado de tudo que não era dito. Era como se a casa respirasse devagar, consciente da fratura invisível que agora serpenteava por seus cômodos. João e Aline se moviam um ao redor do outro com a precisão cautelosa de astronavegeiros no vácuo.
João acordava primeiro, sempre. Ele saía da cama cuidadosamente, para não sacudir o colchão, e ia direto para o banheiro. O rosto que encarava no espelho embaçado parecia mais velho. Os olhos, um pouco fundos. Depois do café, ele se trancava no escritório, alegando home office. A tela do computador mostrava planilhas, e-mails, gráficos de desempenho. Mas no celular, apoiado discretamente ao lado do teclado, outra história se desenrolava.
Ele não procurava mais os vídeos genéricos, os corpos idealizados e encenados. Sua busca, agora, era específica, quase antropológica. “Glory hole anônimo.” “Cabines escuras.” “Experiência real.” Os vídeos eram amadores, granulados, filmados em ângulos esquisitos. Era o anonimato que o fascinava. A não-identidade. A entrega de corpos que eram apenas sombras, mãos, bocas. Ele assistia com uma atenção clínica, a mesma que dedicava a relatórios trimestrais. Às vezes, sua mão ia até a calça, movimentos práticos e rápidos, enquanto os gemidos abafados dos alto-falares do celular se misturavam com o clique seco de seu mouse. O orgasmo, quando vinha, era uma coisa solitária e agressiva, seguida por uma onda imediata de vazio tão profundo que dava vontade de vomitar. Ele limpava tudo com um lenço de papel, jogava no lixo, e voltava a uma planilha de custos, como se nada tivesse acontecido.
Aline mergulhava na rotina com uma energia nova, quase febril. Ela limpava a casa com um zelo inédito, esfregando cantos esquecidos, reorganizando armários. O corpo físico cansava, e esse cansaço era um alívio. Mas a mente nunca parava. Enquanto lavava a louça, os dedos ensaboados em luvas de borracha, ela revivia não a imagem, mas a sensação. O frio do gel na prateleira da cabine. O cheiro do veludo um pouco mofado. O som da respiração ofegante do outro lado, aquele ruído úmido e animal que não parecia mais humano. E, sobrepondo-se a isso, a memória do perfume de Samuel. Lavanda e tabaco.Segurança. Era para esse contraste que seus pensamentos sempre retornavam: o anonimato brutal e o acolhimento quase paternal. Um perigo e um porto. A confusão era deliciosa.
À noite, ela começou a frequentar a sala depois que João ia para o quarto. Desligava as luzes principais, deixando apenas um abajour. Sentava no sofá, a mesma peça onde, vinte anos atrás, eles tinham se beijado pela primeira vez, e abria um livro. Ela não lia. Ficava ali, imóvel, ouvindo os ruídos da noite e a respiração pesada de João vindo do corredor. Então, suas mãos, que pareciam agir por vontade própria, começavam a viajar.
Era diferente da vez no quarto. Aqui, era lento. Um estudo. Ela se tocava por cima da calça de algodão, depois por baixo, explorando cada centímetro de pele como se fosse desconhecido. Suas fantasias já não eram nebulosas. Agora tinham texturas específicas: o peso imaginário de um corpo contra ela na escuridão da cabine, as mãos grandes e seguras de Samuel pousando em seu ombro, a mão anônima do homem da primeira noite – aquela que ela tinha guiado – agora com rosto e voz que se misturavam ao de seu marido dormindo no outro cômodo. Ela se aproximava do clímax com uma paciência cruel, segurando, adiando, até que a onda fosse tão forte que seus músculos do abdômen ficavam dormentes. Depois, ficava deitada no sofá, exausta, olhando para o teto, sentindo o suor secar em sua pele e o vazio retornar, mais amplo e profundo a cada vez.
O sexo entre eles tinha morrido. Não com uma briga, mas com um suspiro. Uma noite, João roçou a perna na dela na cama, um acidente. Os dois se afastaram como se tivessem sido queimados. O contato físico era agora uma terra minada.
A conversa se limitava ao functional.
“Passa o sal?”
“Tá aí.”
“A conta da luz veio alta.”
“É o ar-condicionado.”
“Preciso ir no mercado amanhã.”
“Tá.”
Uma terça-feira à noite, durante o jantar de um prato congelado que nenhum dos dois tinha vontade de comer, João quebrou o protocolo. Não olhou para ela, mas para seu prato de lasanha.
“E aí,” ele disse, a voz rouca por falta de uso. “Tá pensando em voltar praquele lugar?”
Aline congelou com o garfo a meio caminho da boca. O coração disparou. “Qual lugar?”
João fez um gesto vago com a mão, como se afastasse uma mosca. “Porra, aquele clube de swing.” Disse demonstrando irritação na voz.
“Desculpe” Ele disse se desculpando pela irritação, estava cada vez mais impaciente.
Ela preferiu encolher os ombros e abstrair. "Pode ser, se você tiver afim..."
Ele encolheu os ombros, mastigando lentamente. “A gente pagou por três entradas, não pagou? Só fomos duas vezes. É desperdício de dinheiro.”
Era uma racionalização tão óbvia que doía. Aline sentiu um fio de desprezo, seguido de uma pontada de excitação. Ele queria voltar. O constrangimento da cabine não tinha sido suficiente para apagar a curiosidade. Tinha só a alimentado.
“É verdade,” ela concordou, neutra. “Já tá pago mesmo.” Colocou um pedaço de lasanha na boca, sem sentir o gosto. “A gente podia ir sábado. Fechar o pacote.”
João finalmente a olhou. Seus olhos eram dois poços escuros, impenetráveis. Havia um desafio ali, e também um pedido de socorro. “Tá. Sábado então.”
O acordo, fechado sobre a mesa de jantar manchada de molho, foi o único contato íntimo que tiveram naquela semana.
Na quinta-feira, Aline resolveu entrar nas redes socias e verificar o perfil da Luxuosa Casa de Swing. Ela começou a seguir a rede e conseguir ver postagens sobre todos os serviços e espaços da casa.
Na última postagem, que anunciava casa cheia no próximo sábado, com promoção de dose dupla de caipirinha, ela viu a informação do sorteio, 100 VIPs para casais. Era só curtir a postagem, seguir a página e deixar o perfil público. Ela achou legal e resolveu participar.
A mensagem veio no final do dia, direto da página da casa, informando que ela tinha ganhado um dia VIPs para casal. Com acesso completo e bebida liberada por um dia. Ela ficou feliz, não tinha nenhum sorteio até então.
O coração deu um salto dentro de seu peito. Ela ficou olhando para a mensagem, o dedo pairando sobre a tela. Não respondeu. Fechou a rede social. Era um contato direto com esse mundo, um fio que ligava aquele mundo de sombras à sua vida comum. Ela passou o dia todo consciente do celular no bolso, como se carregasse uma pedra preciosa e quente. Ela preferiu não contar isso para João, não seria necessário e talvez ele não fosse querer de toda forma.
Na noite de sexta, João não conseguiu dormir. Ele se deitou ao lado de Aline, que fingia um sono tranquilo, e ficou olhando para o vão entre as persianas. A ansiedade era um animal vivo dentro de seu peito. A ideia de voltar à casa o aterrorizava. Mas a ideia de ficar em casa, preso naquele silêncio, naquele vazio cheio dos próprios pensamentos, era pior. Ele se lembrou da sombra atrás do buraco, daquele momento de puro pavor e excitação contida. Se lembrou do rosto de Aline conversando com Samuel, daquela risada leve e esquecida. O ciúme que sentira então agora se metamorfoseava em outra coisa: uma necessidade urgente de ver, de participar, de não ficar de fora daquela transformação que ele via acontecer nela, lentamente, como um gelo derretendo para revelar uma paisagem estranha e nova. Ele também estaria se transformando?
Ele se virou de lado, de costas para Aline. No escuro, com o som regulado da TV, abriu o celular. Dessa vez, não foi para os vídeos amadores. Foi para um fórum obscuro, cheio de jargões e siglas. Pessoas discutiam experiências.Regras. Códigos de conduta. Ele leu depoimentos de homens como ele, casados, em busca de “algo mais”. Alguns eram patéticos. Outros, francamente perturbadores. Um usuário, com o nickname “Veterano81”, escrevia com uma clareza sóbria e quase filosófica sobre a diferença entre desejo e amor, sobre os perigos e as possibilidades dos espaços como a Luxuosa. Sobre o respeito ao “não”.
João passou horas lendo. Foi a primeira vez, desde a adolescência, que ele buscou informações sobre sexo com uma sede acadêmica, séria. Ele estava se preparando. Estudo de campo. Quando o sono finalmente o venceu, às claras da madrugada, seu último pensamento consciente foi um trecho do tal “Veterano81”: “Você só descobre quem realmente é quando todas as máscaras sociais caem. A questão é: você vai gostar da pessoa que encontrar?”
Sábado chegou com uma lentidão agonizante. O dia foi um mero prólogo. Aline passou horas se arrumando, mas sua escolha foi deliberadamente menos teatral. Vestiu um vestido simples, de linho preto, que caía bem em seu corpo sem apertar. Pouca maquiagem. Queria confiança, não espetáculo. João vestiu uma camisa social, mas sem gravata, as mangas arregaçadas. Pareciam dois profissionais indo a um evento de networking um pouco estranho.
No carro, a tensão era palpável.
“Acho que vou tentar o salão principal hoje,” João disse, os olhos fixos na rua. “Ficar observando. Entender a dinâmica do lugar.”
Aline olhou para ele. “Boa ideia. Eu também posso ficar por lá. Ou… explorar outros cantos.” A mentira pairou no ar. Ela não tinha planos. Só uma pulsação ansiosa no pulso.
“Tá,” ele respondeu. “Só… se cuida.”
“Você também.”
Era um diálogo de despedida antes de uma guerra, não antes de uma noite de diversão.
Quando a fachada da Luxuosa Casa de Swing apareceu, iluminada por seus lustres sinistros, João sentiu o estômago embrulhar. Mas, pela primeira vez, não era apenas medo. Era também o frio na espinha de quem vai fazer um exame decisivo. Ele estacionou, desligou o motor. Olhou para Aline.
Ela já olhava para ele. No escuro do carro, seus rostos eram sombras pálidas. Por um instante, foram apenas João e Aline, os mesmos de vinte anos atrás, prestes a entrar no primeiro baile da faculdade, nervosos e cheios de esperança. A ilusão durou uma fração de segundo.
“Vamos?” ela perguntou, a voz um pouco rouca.
Ele respirou fundo. O cheiro do perfume dela, mais forte hoje, encheu o carro. Era um cheiro novo. Não o dela. Algo amadeirado e perigoso.
“Vamos,” ele disse, e abriu a porta.
O terceiro ato estava prestes a começar. E nenhum dos dois tinha o script.